Textos para Reflexão

                    daqueles que são os nossos mestres, os nossos professores, actuais colegas de eleição


O que os pais devem saber sobre 'o direito de brincar' das Crianças

1. As crianças têm direito a brincar todos os dias.
Na escola, entre as aulas e ao longo delas (sempre que o professor for capaz de pôr brincar a rimar com aprender). Em casa e ao ar livre – no quarto como num parque – sob o olhar, discreto, dos seus pais. Brincar só ao fim de semana não é brincar: é pôr uma agenda no lugar do coração.

2. As crianças têm direito a exigir o brincar como o principal de todos as deveres.
As crianças têm o direito a defender a primazia do brincar sobre todas as tarefas. A fórmula: «primeiro, fazes os deveres e, depois, brincas», tão do agrado dos pais, é proibida! Só depois do brincar vem o trabalho.

3. As crianças têm direito a unir brincar com aprender.
Brincar é o “aparelho digestivo” do pensamento. Liga a imaginação com tudo o que se aprende. Quem não brinca imita, repete, fábula, falseia ou finge. Mas zanga-se, sem redenção, com o aprender!

4. As crianças têm direito a não saber brincar.
Brincar é uma sabedoria que nunca se detém: inventa-se, descobre-se, deslinda-se, desvenda-se. Brincar é confiar: no desconhecido, no que se brinca, com quem se brinca. Crianças sossegadinhas são brinquedos à espera dos pais para brincar.

5. As crianças têm direito a descobrir que os melhores brinquedos são os pais.
Apesar disso, têm direito a requisitar tudo o que entendam para brincar. Têm direito a brincar com as almofadas, com caixas de cartão, com os dedos, e com tudo mais que entendam, por mais que sejam não sejam objectos convencionados para brincar. Tudo aquilo que não serve para brincar não presta para descobrir e com brinquedos de mãos brinca-se de menos.

6. As crianças têm o direito a desarrumar todos os brinquedos...
(e a arrumá-los, de seguida, com um toque… pessoal). Têm direito a desmanchar os que forem mais misteriosos, mais rezingões ou, até, os divertidos. Quando brincam, têm direito a ter a vista na ponta dos dedos, a cheirar, a sentir, a falar, a rir ou a chorar. Não há, por isso, brinquedos maus! A não ser aqueles que servem para afastar as pessoas com quem se pode brincar.

7. As crianças têm direito a brincar para sempre.
A Infância nunca morre: apenas adormece. E quem, crescimento fora, se desencontra do brincar, não perceberá, jamais, que não há crianças se não houver brincar.

Eduardo Sá

 

Educação para o amor

Se as pessoas são mal-educadas para a boa educação e para a sexualidade como podem ser felizes?


1.Aquilo a que se foi chamando boa educação tem-nos estragado, devagarinho. Em primeiro lugar, a esmagadora maioria das pessoas foi mal-educada para os sentimentos.

Porque lhes disseram que há sentimentos bons e sentimentos maus, como se uns fossem toleráveis e os outros interditos.

Ora, aquilo que distingue os sentimentos é mais simples. Todos os sentimentos, pareçam recomendáveis ou maus, são bons. Assim nos sirvam para nos aproximarmos de quem nos lê por dentro, e com eles percebermos que só a obscuridade que se atribui ao que sentimos é uma dor que perdura. E dor sem remissão é maldade. Os sentimentos tornam-se maus quando, através deles, descobrimos, muito depressa, que as pessoas com quem imaginávamos contar para lhes pormos legendas (e nelas encontrarmos entendimento para nós) se transformam em forças de bloqueio para o nosso coração. Todos os sentimentos que nos desencontram de quem nos ama são maus. E até o amor, se se desacerta de quem amamos, magoa. E pode, por isso, tornar-se mau.


Em segundo lugar, fomos todos mal-educados para a agressividade.


A agressividade liga o corpo ao pensamento. É tão natural como a sede. Injecta ira ou paixão nos nossos gestos. Quando se expressa, a agressividade, liga-nos a quem nos lê. Torna-se lúdica e pró-activa. E ética. E só assim aprendemos a ser agressivos com maneiras. Mas quando se guarda expressa-se com efeitos especiais e aos impulsos. Quando os impulsos são insuflados com fantasias de violência guardam-se mais e transformam-se em rancor. Ou «ódio de estimação», se preferirem. E ele assusta. Porque nos torna amigos (assustados) da violência.
Pelo menos nalguns períodos da nossa vida, todos somos aos bocadinhos amigos da violência. Basta que fujamos de a confiar a quem nos lê. (Na maior parte das vezes, tentamos que a violência que se sente de fugida fique, hermeticamente, fechada, dentro de nós. Fechamos o rosto, fechamos os gestos, e até o sorriso se fecha num esgar.) Viver a violência não nos torna odiosos. Aliás, quando encontramos quem a legende para nós, os sentimentos maus podem ter nessa experiência de comunhão, a porta com que se abre a nossa redenção.
Em terceiro lugar, fomos mal-educados para as palavras. 


As palavras engasgam-nos os gestos quando falar devia aplainar o coração. Todos os sentimentos são bons, repito, sobretudo se forem clareados por palavras. Mas se falar em jacto dum sentimento, inquina-o com o medo de não ser entendido, falar de forma encriptada, como se bastasse dizer o que sentimos mesmo que ninguém nos entenda, torna-nos amigos da solidão. Ficando por entender, os sentimentos (que são clarividência e são o que nos une) transformam-se naquilo que desliga. Isto é: sentimentos sem palavras são ressentimentos.
E, finalmente, fomos mal-educados para a imaginação.


Porque nos recomendaram que imaginássemos antes de agir, quando isso é, muitas vezes, uma belíssima forma de complicar. E porque nos sugeriram comedimento nas fantasias como se se imaginasse de cabeça na lua. Imaginar não é agir. E, apesar disso, a vida é sempre mais fácil quando se vive do que quando se imagina. Imaginar será trair? De certo modo, sim. Sobretudo, o melhor de nós. Que só se revela quando se vive.


Porque fomos mal-educados para os sentimentos, para a agressividade, para as palavras e para a imaginação, toda a cor daquilo que sentimos foi ficando pálida e tristonha. Não falamos dos sentimentos. Não dizemos «não» nem nos zangamos sempre que é preciso. E refreamos a imaginação. Estamos mal-educados para a boa educação. E, quando é assim, como se pode amar do coração até à pele? 


2. Mas também fomos mal-educados para a sexualidade. Eu sei que são precisos muitos anos para se saltar – com transparência, autenticidade e bondade – da fantasia para os gestos com sexualidade. Mas muitas pessoas passam, precipitadamente, das fantasias sexuais à parentalidade. É por isso que é urgente falar da sexualidade não tanto como o princípio do prazer mas como aquilo com que as pessoas constroem a sua infelicidade. Pelos sentimentos que guardam. E com o silêncio com que os revestem.


É por isso, e porque foram acumulando anos de mal-entendidos, que vivem a sexualidade como um débito conjugal. Ou sentem-na como um imposto de valor acrescentado duma relação conjugal. Outras, descobrem (muito tarde) que nem sempre o seu melhor amigo será um grande amor. (São essas as pessoas que se refugiam nas dificuldades no adormecer de alguns dos seus filhos. Ou, logo que vivem a sexualidade como uma experiência de infelicidade, elegem as dores de cabeça como uma febre de sábado à noite. Ou adormecem, clandestinamente, todos os dias, no sofá. Para protecção de todas elas, que serão a maioria dos portugueses, deveríamos tomar a sexualidade como uma questão de saúde pública.)


É por isso que a sexualidade não é tão natural como a sede. Apesar do desejo ser amor à primeira vista, a paixão é amor à segunda vista e o encantamento um amor à terceira. Não é um impulso biológico que se esgota num orgasmo e que daí se confunda alívio com prazer.
A sexualidade faz bem à saúde. Embora o erotismo não seja um lado animal que age em nós. O erotismo serve para ir ao encontro do outro. Mas só a ternura permite que se vá ao encontro do interior do outro (e do seu impacto estético na nossa vida).


A sexualidade é uma forma de conciliar – num só gesto – sensações, sentidos e sentimentos. E fazê-lo em dois ritmos que se casam numa mesma cumplicidade. E numa comunhão entre pessoas que se despem por dentro. 


A sexualidade leva-nos da superfície do corpo ao fundo da alma. Logo que se toca na pele toca-se dentro. Logo que se toca dentro o outro deixa de ser nosso. Deixa de ser outro. Passa a ser parte de nós.

Por tudo isto:
É urgente dessexualizar a educação. Deixar de imaginar que a proximidade pega fogo e que duas pessoas, em contacto com o ar, se tornam produtos mais ou menos inflamáveis. 


É urgente inabilitar todas as formas que tomam a sexualidade como uma tecnocracia para a felicidade. Quer quando se transforma a educação sexual numa burocracia de gestos isolada do afecto. Quer quando se fala de disfunções sexuais à margem dos ressentimentos que se esgueiram do corpo, sempre que são silenciados.


É urgente compreender que cada abraço não é um quero-te! mascarado de ternura, e que os sentimentos não se devem guardar fora do alcance das pessoas.


É, também, urgente desmentir que a contenção é o topo de gama da natureza humana, ao pé da qual todo o prazer deve ser castigado. O prazer é uma forma de descobrir que a minha liberdade começa onde começa a do outro.


É urgente fantasiar. As fantasias que nos surpreendem são próprias de quem namora com a vida. É por isso que a fantasia é o paraíso fiscal das infidelidades. Os pensamentos põem dúvidas onde parecia só poder existir a unanimidade da paixão e trazem infidelidades onde, antes, parecia só se tolerar a unicidade dos afectos. «Pecar» por pensamentos e por omissões faz bem à sexualidade. Põem em dúvida quem temos connosco: comparam, ambicionam e devaneiam. Pecar por pensamentos enriquece a relação amorosa, expande a sexualidade para fora do corpo e devolve-o ao pensamento com a convicção de que só pecando se chega ao céu. 


É urgente explicar que é proibido casar com o primeiro namorado. Pois só a pluralidade das experiências que nos interpelam torna urgente descobrir o que queremos em alguém que nos queira. 


É urgente acarinhar uma cultura do prazer. Prazer não é alívio. Prazer a qualquer preço é solidão. Prazer pelo prazer masturbação. Mas se for 1 em 2, prazer é comunhão. 


É urgente proibir que se case para sempre. E que se diga que uma relação, se não se cuida, não perdura amorosa, para sempre. Só as relações preciosas são frágeis. Só elas, sempre que nos decepcionam, nos matam para o amor. 


É urgente dizer que amar é sentir e palavrear duma só vez. É dizer eu e tu ao mesmo tempo. É esperar que o outro saiba sempre mais de nós do que nós próprios. É conceber a diferença entre imaginar que se voa e aprender a voar. E descobrir que um amor só é amor quando nos diz: sente-me em ti, olha por mim, fala por nós. .

 

Eduardo Sá

 

A MEDIDA DO TEMPO

Professor Velho, toda a gente mede o tempo com o relógio?

Não Manel, ninguém mede o tempo com o relógio. O relógio só serve para organizar as pessoas, todas as pessoas, dentro do tempo. Medir o tempo é diferente, cada pessoa mede o tempo à sua maneira.

Não percebo, Velho.

Quando estás a ler um livro de que gostas muito, o tempo é grande ou pequeno?

É pequeno, a gente quer ler sempre mais.

Quando estás a ler um livro de que não gostas, mas tens que ler, o tempo é grande ou pequeno?

É grande, nunca mais chega ao fim.

Quando estás na aula de que gostas mais, o tempo é grande ou pequeno?

É pequeno, acaba num instante.

Quando estás na aula de que gostas menos, o tempo é grande ou pequeno?

É grande, nunca mais acaba.

Quando estás com os amigos de que gostas mais, o tempo é grande ou pequeno?

É pequeno, dura sempre pouco.

Quando estás com pessoas de que não gostas, o tempo é grande ou pequeno?

É grande, Velho, nunca mais me safo delas.

Como vês, Manel, não é o relógio que mede o tempo, é o coração, por assim dizer. O relógio só organiza as pessoas no tempo. Agora, vai almoçar que a manhã está no fim.

Já Velho!? Passou mesmo depressa.

 

Zé Morgado

 

Uma questão de tempo

Não é verdade que tenhamos hoje menos tempo. Temos, isso sim, tantos apelos tão vibrantes que cada escolha se torna sempre um pouco mais inadiável.


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1.

Não é verdade que tenhamos hoje menos tempo. Temos, isso sim, tantos apelos tão vibrantes que cada escolha se torna sempre um pouco mais inadiável. Mas, antes como hoje, talvez o tempo seja, realmente, «uma ilusão obstinadamente persistente». Falamos dele como se fosse palpável. E, de tão supostamente real, medimo-lo dando a entender que não há nada que os números não transformem em qualquer coisa de sossegado e irrefutável. Mas só descobrimos o tempo à medida que o perdemos. E, sendo assim, como se pode agarrar uma ilusão (que é bem aquilo que o tempo, sobretudo quando nos foge, mais parece)?

 

Embora o tempo seja uma metáfora que casa os ritmos da Natureza com a subjectividade humana, o tempo começa, para quase todos, na eternidade. Porque só os olhos nos olhos (entre um bebé e a sua mãe) dão tempo ao tempo. (Porque quando sentimos com os olhos isso é namoro. E só namorando se ganha tempo.)

 

2.

Se a infância, hoje, (considerando que só a autonomia com que ela nos habilita para «patrões de costa» do tempo) é maior, e vai dos 0 aos 30, nem sempre uma infância maior significa mais tempo para ser criança. Porque se hoje fazemos por poupar às crianças os ressentimentos com que se roubava tempo ao tempo, a maior parte delas, por exigência dos pais, troca o tempo livre pela urgência de crescer. E, quando dá por isso, fica empanturrada de «não tenho tempo» (que é tudo aquilo com que, sempre que evitamos escolher, mais nos desculpamos). Mas, apesar do maltrato que damos ao tempo, crescemos tão articulados com a eternidade que, seja quando for, ela nos alimenta a ilusão de termos, em muitas idades, todo o tempo do mundo.

 

3.

Não sei bem até quando imaginei que podia ter todo o tempo do mundo. Suponho que terá sido até ter descoberto que há saudades daquilo que deixámos por viver. Não são saudades boas, reconheço. São obras que morrem antes ainda de saírem do projecto. (Aliás – acho eu, agora – ou temos memória ou temos saudade. A memória é um estado de espírito amigo do futuro. A saudade um «oh tempo, volta para trás», vizinho dos remorsos, sem a aragem, guerreira, com que só a memória nos consegue aconchegar. Às vezes complicamos, não é? Na verdade, talvez não haja memória sem esperança. E vice-versa. Ou, melhor: memória é esperança. E nada mais.) E foi então que, com um leve sentimento de traição, me dei conta que «todo o tempo do mundo» (aquilo que, como muitos, algumas vezes, tanto quis) não seria das descobertas mais deslumbrantes que se tenham. Tirando as pessoas que são mais zombies por dentro do que parecem e que vivem definhando no ressentimento (que não é nem memória nem saudade, mas um purgatório etéreo, aquém dos dois) não ter um pé nem no passado nem no futuro faz de nós, quanto muito, homens-estátua. Será, ao contrário do que sempre supus, um inferno cor-de-rosa. (Há dias que começam por se descobrir - tenho esperança de ir a tempo... - que não temos sido inteligentes por aí além...) Ainda assim, eu quero ter tempo. Por outras palavras: mandar mais no tempo do que eu acho que ele acaba (um ror de vezes) por conseguir ficar a rir-se de mim. Mas, chegado aqui, pergunto eu, como se faz?

 

4.

Como todos aqueles que amam a vida, houve muitos momentos - acho eu – em que tive urgência de crescer. O futuro sempre foi, para mim, o melhor do mundo. E - vejo, agora – em períodos alcatifados de sofrimento, o futuro tornava-se um pouco mais urgente. (Estava eu longe de descobrir que só quando não alavancamos o crescimento numa vertigem, como se não houvesse amanhã, é que temos futuro.) Mas, lá está, o sofrimento é tão amigo dos ressentimentos que, mal se dá por eles, o futuro já não interessa. Precisa-se do tempo todo (não só do nosso; mas... o do mundo). Que é como quem diz que o sofrimento transforma o futuro num lugar acanhado demais para ser o céu.

 

Era cedo para perceber que todo «o tempo do mundo» faz lembrar aquelas pessoas que, quando nos querem sensibilizar para as suas urgências, reconhecem que os seus pedidos eram... «para ontem». «Todo o tempo» não é nem saudade nem memória: é gula. É querer o futuro para ontem. E é querer (tudo!) sem nada escolher. (Querer tudo e «matar o tempo» são a mesma coisa, não é? Acarinham o tédio onde, supostamente, havia de haver, sobretudo, paixão.) Porque é quando se escolhe que se ganha tempo e se ganha ao tempo. Porque só assim o tempo nos tem a nós (e, por momentos, que seja, ele nos tem para si). É, realmente, «preciso muito tempo para se aprender a ser breve».

 

5.

Nunca se tem o tempo todo.  Não no sentido de fazer de tudo uma urgência. Mas no de nunca se dever guardar para dizer amanhã o que hoje se sente. Nem para deixar de sentir com os olhos. Nem, muito menos, para deixar de escolher. Viver é, realmente, uma questão de tempo. Mas só o namoro o torna eterno.

 

Eduardo Sá

 

A "segunda família"

Cresceram vazios, sempre em busca de uma gratificação imediata, tornaram-se exigentes para com os pais, perderam de modo progressivo o sentido do outro: acima de tudo, querem estar bem, viver sem preocupações, "curtir" o momento. Os pais sentem-se perdidos, porque receiam ser firmes, na ânsia de tudo fazerem para que os filhos "sejam felizes" adiam dizer não, mesmo quando não concordam: preferem permitir, também porque às vezes é mais fácil. Quando a família se desmorona por doença mental ou por divórcio, os filhos são muitas vezes os bodes expiatórios dos progenitores e saltam de casa em casa sem que ninguém fale com eles. Mesmo quando a família se mantém intacta e sem problemas de maior, os adolescentes parecem considerá-la secundária, porque são os colegas, os amigos e os contactos na Internet que verdadeiramente os mobilizam.

Fala-se então da "segunda família": os jovens vivem submersos na música preferida, nas roupas, nos adornos corporais e quem lhes interessa, em muitos casos, já não são os pais, os avós e os irmãos, mas os membros da sua nova rede relacional. A escola é importante não como fonte de conhecimentos, mas como alguma coisa que se tolera porque permite ter amigos e levar ao máximo experiências-limite, sobretudo se forem filmadas e exibidas para o grupo. Os pais assistem atónitos: acabadas as redes de vizinhança, enfraquecidas as organizações estruturadas na comunidade e dirigidas por adultos (igreja, escuteiros, grupos desportivos...), olham em redor e vêem os filhos adolescentes cada vez mais longe. É, por exemplo, habitual que os adolescentes faltem aos aniversários ou a outros rituais familiares, porque "vão sair", ou "é o dia de estarem com os amigos".
A explosão tecnológica trouxe a todo o lado esta "cultura" juvenil: telemóveis, grupos de conversação, dispositivos para ouvir música e muitas outras coisas permitiram a comunicação a distância e a socialização fora do controlo familiar: hoje muitos amigos não aparecem em casa e estão longe do grupo de pares de que tanto se falou nos anos noventa. Os ídolos não são os protagonistas da televisão ou do cinema, são sites e programas de conversação que nem sempre veiculam bons modelos: em muitos casos triunfam agora as mensagens hipersexualizadas, os sites das anorécticas, os links para a violência.

Que fazer? Encarar o problema e deixar de vez o discurso saudosista ou derrotado: em primeiro lugar, definir com o adolescente em causa a sua rede relacional. Os adultos responsáveis pela educação têm de saber com quem os filhos contactam, em proximidade ou à distância; perceber quem são os líderes do grupo e por que razão são influentes; trazer para casa membros da "segunda família", sem esquecer de fazer notar que a primeira é a crucial, porque será mais duradoura. Para isso, os pais devem partilhar experiências com outros pais que tenham filhos em situação semelhante, conhecer ao máximo as novas tecnologias, melhorar a proximidade com a escola sem invadir demasiado o território escolar.

O debate sobre estas questões demonstrou como se discute o acessório, sem que as pessoas se apercebam como tudo está a mudar na adolescência e na família. A nova facilidade na comunicação tem de ser a garantia de que os pais contactam os filhos durante o dia, mesmo que estejam a trabalhar. E é bom ver se todos estes comportamentos nos jovens não são uma luta contra o anonimato e o vazio das suas vidas: mesmo que o sejam, temos de os atalhar a tempo.

 

Daniel Sampaio

 

10 mandamentos para o amor dos pais

Não sou - reconheço - muito amigo de soluções mágicas e minimalistas que, com "gotinhas" para adormecer, "gotinhas" para aprender a controlar os esfíncteres e "gotinhas" para estimular a atenção tem vindo a transformar o crescimento numa espécie de felicidade sintética que me preocupa.

 

1.

Não sou - reconheço - muito amigo de soluções mágicas e minimalistas que, com "gotinhas" para adormecer, "gotinhas" para aprender a controlar os esfíncteres e "gotinhas" para estimular a atenção tem vindo a transformar o crescimento numa espécie de felicidade sintética que me preocupa. Nem gosto por aí além das escolas para bebés, nem das escolas de pais, nem da densidade exorbitante por metro quadrado de crianças sobredotados e de crianças «cheias de personalidade» (ou com imensa autoestima, se preferirem) que faz do crescimento um furor pouco amigo da humildade e da sensatez. Em primeiro lugar, porque sinto que essa tendência é, em grande parte, decalcada no mundo dos adultos (que, à custa de não o gerirem, vivem - muitas vezes - intoxicados por efeitos especiais e inquinados por uma angústia que os corrói). E, em segundo lugar, porque, salvo circunstâncias muito excecionais, todo o tipo de soluções que contornem o tempo que a educação precisa de ter para se consolidar (a educação para a saúde, a educação para o amor, ou a educação para o conhecimento, por exemplo) têm uma fatura incalculável - no curto e no médio prazo - que quase nunca é estimada, de forma clara e ponderada, quando se opta por soluções rápidas, seja para o quer for. Afirmar que é urgente a educação pode parecer jurássico (reconheço) mas acaba por distinguir aqueles que delineiam um projeto de vida, e o tornam exequível, com atos de gestão (coerentes e constantes), daqueles que reclamam - agitadamente - por felicidade mais do que lutam, com determinação, por ela.

 

2.

O crescimento tem vindo a tornar-se muito amigo do silêncio e da educação tecnocrática e as crianças são, sobretudo, educadas para a contenção. O que faz com que elas sintam, imaginem, fantasiem, estruturam uma leitura simbólica sobre tudo, à volta delas... mas não falem. E isso é mau! É por irmos da emoção à palavra, e dela à complexidade das operações mentais, que se geram os gestos empreendedores com que o mundo pula e avança. E é por casarmos complexidade e simplicidade, e por ligarmos singular e plural, que todas as revoluções nos apanham, justamente, desprevenidos.

Como, ainda por cima, cuidamos muito pouco da língua portuguesa e vivemos numa velocidade tão vertiginosa que, quando damos por isso, nos transformamos em ilhéus, numa permanente desertificação relacional, temos vindo a educar os nossos filhos para a iliteracia emocional. (Isto é: em consequência da forma menos hostil e autoritária como educamos, estamos a criar crianças que parecem mais precoces, mais inteligentes e mais personalizadas que os seus pais mas, por outro lado, essa fabulosa competência para a sensibilidade, para o afeto e para o pensamento é atropelada, a torto e a direito, por uma escola, por uma família e por estilos de vida infantil que transbordam em stress e em hostilidade e que, por isso, não escutam, não sentem, nem criam espaços para que essa competência se formate em palavras para que, de seguida, se traduza em gestos empreendedores. Iliteracia emocional é uma espécie de analfabetismo educado para tudo aquilo que compõe a natureza humana que, como se compreende, o futuro não merece.) Um bom exemplo desta atitude tão contraditória diante do crescimento surge quando se repete, com vaidade, que seremos A sociedade do conhecimento, embora as crianças, mal cheguem à escola, deixem de perguntar "porquê"... Ora, quanto mais iliteracia emocional mais angústia e mais hostilidade (que é um 2 em 1: depressividade, por desamparos cumulativos, e violência contida).

 

Por tudo isto, e embora não discuta a qualidade intrínseca da maioria deles, a maior parte dos pais - ao permitirem tudo isto, ao contrário daquilo que desejam - tem um potencial de bondade a perder de vista, mas... são maus pais.

 

3.

De que modo podemos, ao mesmo tempo, reivindicar o direito à indignação e desenhar transformações que tornem o futuro das crianças melhor,  mais bonito e mais saudável?

 

A meu ver, chega-se lá com 10 mandamentos para o amor dos pais:

 

- É urgente que os pais se deixem surpreender pela parentalidade. É precioso que se informem, claro, mas é indispensável que percam o medo dos seus erros (sem os quais  nunca passarão da intenção de serem pais à parentalidade).

 

- É urgente que os pais escutem as crianças mas que decidam por elas. É urgente que opinem mas que não vacilem quando se trata de as obrigar a ser autónomas. Pais presos na sua própria infância não são pais: são crianças à procura de colo. Não educam nem são educáveis. Replicam os erros e os enredos que os atormentaram toda a vida.

 

- É urgente que os pais admirem os filhos - o seu engenho, o lado afoito que eles têm  (que se renova, todos os dias) e a sua mais versátil manhosice - mas que não percam de vista que só a sabedoria dos pais os legitima para amar (e que a ela nunca se chega sem dúvidas, sem dilemas entre gestos de sentido contrário e sem contradições).

 

- É urgente que os pais olhem nos olhos, sempre que falam com a voz e com as mãos, ao mesmo tempo. E que chorem, sempre que lhes apeteça, e que resinguem e se lamuriem, que façam uma ou outra birra e, sempre que querem mimo, que intimem (sem mais explicações) um filho a dá-lo.

 

- É urgente que os pais deem colo todos os dias. E que falem todos os dias. E que abracem e beijem todos os dias. Que se sentem no chão, inventem uma historieta e contem graçolas todos os dias.

 

- É urgente que os pais, quando não têm nada para falar, não perguntem como correu a escola. E que sempre que não gostam dum desenho não digam que ele é lindíssimo. E que - pelo seu nariz, que seja - quando sentem que uma criança está mais ou menos tristes, estão impedidos de fazer outra coisa que não seja apertá-la (caladinhos!) com muita força, 10 minutos.

 

- É urgente que os pais sejam tão reivindicativos como pais como eram como filhos - e que, apesar disso, sejam eles a Lei - e que exijam que as crianças participem, todos os dias, nos trabalhos da casa (sem os quais as crianças vão de principezinhos a pequenos ditadores).

 

- É urgente que os pais não estejam de acordo, entre si, em relação seja ao que for que represente mais um problema que um filho lhes coloque. Os conflitos dos pais são os melhores amigos de todas as crianças porque é com eles que os pais soltam a intuição e as convicções e deixem cair tudo aquilo que, parecendo compenetrado, não tem nem entusiasmo, nem alma, nem magia.

 

- É urgente que os pais falem sobre os filhos: que desabafem sobre os seus medos e compartilhem as suas dúvidas mais ridículas. E que percam a vergonha de falar das habilidades das crianças e de como se sentiram no céu ao serem lambuzados com um beijo. E que deixem de trazer, como se fosse por esquecimento, todas as fotografias que bem entendam dos seus filhos, sobretudo aquelas que mais os embaracem ou que mais os comovam.

 

- É urgente que os pais reconheçam que jamais deixam de ser filhos e de ser pais. E que se não tiverem tido, vários dias, em que resmunguem contra os filhos e se desapontem com eles é porque os estão a educar à margem da sensibilidade e da fantasia, do afeto e da sabedoria. E, se for assim, estão condenados a ler estes 10 mandamentos outra vez.

 

Eduardo Sá

 

 

 

DEPRESSA

Vá lá, acorda, tens que te despachar depressa, não podemos ir atrasados, tu para a escola e eu para o trabalho.

Já vou.

Vá, bebe o leite e come o bolo. Depressa. Está quase a tocar.

Já vou.

Então que se passa, tens que realizar o trabalho mais depressa, os teus colegas já quase todos acabaram.

Sim Setora, está quase.

Então, não podes demora tanto tempo a fazer esse trabalho. A turma quase toda já o acabou. Tens que trabalhar mais depressa.

Está bem Setora, estou quase a acabar.

Meu, temos que ir a correr, já tocou e a Setora marca falta. Embora depressa.

Já vou.

É sempre a mesma coisa, olha para os teus colegas, não és capaz de trabalhar um pouco mais depressa?

Não sei Setora, acho que não.

Vá lá, acaba isso depressa, está quase na hora de ir para casa.

Sim, está mesmo quase.

Agora, vais fazer os trabalhos de casa. Procura fazer depressa para acabares antes de jantar.

Sim, vou já.

Não te entretenhas a olhar para a televisão, janta depressa para acabares os trabalhos.

Está bem.
Não adianta dizer nada, já devias estar a dormir e ainda não acabaste. Despacha-te depressa, está a ficar tarde e amanhã é dia de escola.
Está quase.

Dorme bem e descansa.

Sim.


Vá lá, acorda, tens que te despachar depressa, não podemos ir atrasados, tu para a escola e eu para o trabalho.

...

 

Zé Morgado

 

A HISTÓRIA DO ALUNO AGITADO

Um dia destes, a Professora Isabel cruzou-se à saída da escola com o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros.

Ainda bem que te encontro Velho, preciso de um conselho.

Esse é um dos problemas dos Velhos, as pessoas estão sempre à espera que os Velhos tenham conselhos.

A sério, tenho lá um miúdo, o Fábio, acho que conheces.

Sim sei, é um miúdo que anda sempre a correr.

Esse mesmo Velho, e é até por isso que e sou inquieta, ele é um miúdo que de facto se mexe e corre embora não ache que faça muito mais que os outros da idade dele. A questão é que os pais vieram falar comigo porque temem que o Fábio seja hiperactivo e querem levá-lo a uma consulta, que achas que diga.

Já tenho muitas vezes conversado sobre isso, parece que estamos a mudar as ideias sobre os miúdos. Cada vez mais se acha que qualquer miúdo tem qualquer coisa, às vezes até digo que só temos os dis-miúdos, todos têm uma dis-função qualquer, quase que já não se encontram miúdos normais, saudáveis. Então no que respeita à chamada hiperactividade é mesmo assustadora a facilidade com que lhes colocam “rótulos” de hiperactivos. Existem naturalmente miúdos que podem ter problemas desta natureza mas é impossível existirem tantos como os que são referenciados e, pior, medicados como tal. Muitos deles, tal como o Fábio, miúdo que conheço bem, são miúdos “em movimento”, miúdos cujos estilos de vida e contexto familiar lhes induzem essa agitação e eles acabam por ficar como aqueles relógios automáticos que precisam de andar no pulso, andar agitados, para funcionar. Esses miúdos já não são capazes de abrandar, “vivem” da agitação.

Acho que precisavam de ambientes mais tranquilos, mais calmos, com menos ruído e caos, com menos pressa e eles certamente sentir-se-iam menos agitados, mais regulados. Experimenta falar com os pais no sentido deles próprios não se sentirem tão agitados e inquietos. Com alguma frequência a hiperactividade “pega-se” aos miúdos, muitas vezes pelos pais, apesar das suas boas intenções.

Acho que percebo, de facto nós todos passamos a vida a correr. A propósito, já estou atrasada, tenho que me apressar para poder passar pelo ginásio antes do jantar.

Pois.

 

Zé Morgado

 

PERDER O COMBOIO

Estamos a aproximarmo-nos rapidamente do final do primeiro período escolar. Por esta altura com a realização dos últimos testes e trabalhos começa a perceber-se o provável resultado do trabalho desenvolvido por alunos, professores e pais que se traduz, de forma telegráfica mas muito significativa, no número que aparecer nas pautas.

Neste contexto, não é rara a constatação de que alguns alunos começam, como por vezes se diz, a "perder o comboio" ou, noutra versão, a "não acompanhar".

Esta situação não será de estranhar, os miúdos são diferentes, os professores são diferentes, as famílias são diferentes, etc. A grande questão é o que fazer com os que estão a "perder o comboio" e é por aqui que surgem as grandes dificuldades. O que em muitas circunstâncias existe quer de vontade, quer de meios, quer de organização é manifestamente insuficiente e ineficaz. Os resultados ainda muito pesados de insucesso no final do ano não podem, evidentemente, ser explicados unicamente pela falta de qualidade ou dotes individuais dos alunos, traduzem fundamentalmente, a falta de eficácia do trabalho produzido por todos, independentemente, do esforço ou empenho que muitos dos envolvidos, alunos, professores e pais possam colocar no que fazem.

Parece assim necessário que as escolas tenham meios, dispositivos e modelos de organização que de facto ajudem os que agora começam a "perder o comboio".

Se assim não for, para muitos deles o comboio já não vai passar outra vez, perdem-no irremediavelmente.

 

Zé Morgado

 

Ir à Lua aprender

A escola magoou-me, quase todos os dias. E foi por isso que só muito tarde descobri que ela podia ser a minha casa. Nunca percebi porque é que a gramática tinha de se aprender com lágrimas...



1. A escola magoou-me, quase todos os dias. E foi por isso que só muito tarde descobri que ela podia ser a minha casa. Nunca percebi porque é que a gramática tinha de se aprender com lágrimas. E porque é que, se tínhamos de ser amigos uns dos outros, a Irmã Camila nos batia para aprendermos a escrever sem erros, no ditado. Para mim, o melhor das aulas era estar na Lua. Mentia, fazendo de conta que estudava os verbos ou a tabuada e, debruçando a cabeça sobre a mesa, fazia de cada pensamento um foguetão. Reconheço que ainda hoje não entendo porque é que pensar é estar na Lua. Mas, sempre que podia, fugia para lá. Eu nem gostava por aí além de andar na Lua. Mas gostava muito menos de estar nas aulas. Olhando para trás, acho que mentíamos todos um bocadinho uns aos outros: a Irmã Camila achava que se nos lembrávamos das coisas era porque talvez as soubéssemos; e nós, ao repeti-las sem as percebermos, fazíamos de conta que ela tinha razão. Foi por isso que quando entoei, a meio do exame da terceira classe, o nome de todos os astronautas da Apolo IX, e escutei um zurzir de pasmo atrás de mim, fiquei preocupado. Na verdade, nunca tinha imaginado que uns senhores vestidos de branco, aos saltinhos pela Lua, fossem uma festa para tanta gente. E, ao ver os olhos humedecidos dos meus pais, compreendi que os adultos são demasiado imprevisíveis (porque supunha que os faria mais felizes com a matemática, por exemplo). Foi então que comecei a achar que o grande problema de me perder na Lua não passava tanto por fugir para lá. Mas, ao contrário dos astronautas da Apolo IX, por andar – Lua-a-baixo, Lua-a-cima – sozinho, em silêncio e às escondidas. Mais tarde, ao jogar futebol com a Irmã, rasteirei-a. Sem querer, suponho. Mas ainda a tempo de perceber que a desculpava. (Apesar de todas as vezes em que foi injusta e batia ao Gaspar, como se ele só pudesse aprender com muitas dores e quase nunca a brincar e sem dar por isso.) E a tempo de gostar dela. Quando ela me estimava eu ia à Lua. Agora, mais às claras. De mão dada na dela. E foi assim que, aos poucos, a escola passou a ser também a minha casa. Hoje, não sei se o primeiro passo na Lua representou um salto para a Humanidade mas, para mim, transformou o exame da terceira classe no meu primeiro dia de escola.

2. É importante falarmos da escola com justeza. Porque são de menos as pessoas que, na escola, se surpreendem com magia. São de menos as histórias que as comovem. E são de menos os conhecimentos que as divertem, as remexem e as arrumam. É por isso que deve-
-mos dizer que não é verdade que a escola seja um lugar ameno e divertido onde caiba toda a gente: os cobardes e os audazes; os atinados e os rebeldes; os preguiçosos e os tenazes. E que não é verdade que, à parte do cheiro dos livros quando são novos, eles se tornem apetitosos e que apeteça folheá-los. E que seja gostoso acordar para a escola todos os dias, a não ser quando se tem uma visita de estudo, um torneio seja do que for ou no último dia das aulas. E que não é verdade que os professores sejam, todos eles, amigos do conhecimento e que o acarinhem. E que percebam das crianças: imaginem como elas pensam, que sintam o seu olhar e o interpretem e que as ajudem a descobrir que somos sábios sempre que descobrimos, dum jeito mais simples, para que serve tudo aquilo que sabemos. Não é verdade que a escola acarinhe a curiosidade e aconchegue os pensamentos, os vista com palavras e ensine que falar ajuda a conhecer. E que seja amiga das conversas. Que acarinhe as contradições e as ligue umas nas outras, e desafie para compreender (que é o contrário de condescender). E que impeça de se repetir a mesma solução enquanto não se descubram novos problemas. E que não permita que se deslinde, porque conhecer é alindar. E não deixe que ninguém caia em si, só por acaso, porque quem não aprende de dentro para fora não desvenda: só se enfeitiça. Não é verdade que as crianças fiquem mais sábias com a escola. E que se tornem mais transparentes, mais verdadeiras e mais bonitas. E que, depois de cada descoberta, só lhes apeteça correr para o futuro. Em resumo, as crianças não gostam da escola quando a escola não gosta das crianças. Isto é: se eu mandasse, só devia aprender quem fosse à Lua!

 

Eduardo Sá

 

OS (DIS)MIÚDOS. Uma nova história

Retomando um tema que de vez em quando aqui trago pela importância que julgo merecer, volto aos (dis)miúdos. Alguns de vós, muito provavelmente, estranharão o título, vou tentar explicar.

De há uns tempos para cá uma boa parte dos miúdos e adolescentes ganharam uma espécie de prefixo na sua condição, o "dis".

Se bem repararem a diversidade é enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.

Temos também as crianças e adolescentes que têm (dis)túrbios. Estes também são das mais diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória, distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade, distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.

Como é evidente existem ainda os que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente (dis)funcional.

Pois é, há sempre um "dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem que ter qualquer coisa".

Agora um pouco mais a sério, sabemos todos que existem um conjunto de problemas que podem afectar crianças e adolescentes mas, felizmente, não tantos como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos "diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos e dos quais eles dificilmente se libertarão.

Esta matéria, avaliar e explicar o que passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético e deontológico além da óbvia competência técnica e científica. Não se pode aligeirar, é "dis"masiado grave.

Para ilustrar uma pequena história fresquinha de hoje, uma gaiata de nove anos que já carrega um rótulo de "disléxica", dizia com um ar entre o esperançado e o envergonhado, "a minha professora diz que há meninos lá na sala que dão mais erros que eu e não são disléxicos, eu é que sou".

Elucidativo.

 

Zé Morgado

 

LEVAR OS MIÚDOS À REVISÃO

Um amigo meu que tem gaiatos pequenos costuma dizer que os leva à revisão quando vai às consultas de rotina do pediatra.

Acho curiosa esta aproximação da "manutenção" dos miúdos à manutenção dos carros. Na verdade, muitos pais fazem com os miúdos o que fazem com os carros, nos primeiros anos tratam de uma manutenção mais cuidadosa e regular, à medida que o tempo passa vão ficando mais negligentes limitando-se ao combustível e ao mínimo que mantenha o carro a funcionar.

Por outro lado, os carros ainda trazem um manual de instruções com uma definição bem clara dos modos e tempos da manutenção mesmo que depois não sejam observados, mas os miúdos continuam a ser "adquiridos" sem virem acompanhados de manual de instruções o que, além de ser ilegal, complica o entendimento da sua manutenção.

Acresce a isto, o facto de os carros mais modernos serem "cada vez mais electrónica e cada vez menos mecânica", ou seja, estraga-se algo não se arranja, substitui-se o "chip". Os miúdos continuam com mecanismos muito complexos, com mais mecânica e menos electrónica, exigem mecânicos à antiga, daqueles que percebem os carros e o seu funcionamento, que afinam de ouvido, sabem escutar e interpretar, percebem e compõem.

É assim que funcionam os bons pais e os bons professores, como os velhos mecânicos, não têm manual e instruções, mas sabem o que são os miúdos e como funcionam, sabem escutar, perceber os sinais dos problemas de funcionamento e com as ferramentas adequadas sabem afinar o "trabalhar", seja ao "ralenti", seja em rotações mais elevadas.

 

Zé Morgado

 

Educar para o invisível

A escola nunca devia ser inclusiva! Incluir não é integrar. Incluir é, muitas vezes, amalgamar o que nos distingue numa ideia - totalitária - de pessoas normais. Integrar é acarinhar as diferenças: só as escolas plurais são… universidades. E só quando casam aprender e brincar são… jardins-de-infância.

 

1
As crianças transformam-se de dentro para fora da família, e o mundo «pula e avança» de dentro da escola para fora dela. Mas só quando a família e a escola se emparelham nos mesmos objectivos, as revoluções acontecem. Infelizmente, quase nunca escola e família esperam o mesmo das crianças (e, talvez por isso, as coloquem no meio de birras rezingonas, mais ou menos sem fim). As famílias desejam que as crianças se tornem pessoas sempre melhores. A escola aspira a que tenham mais conhecimentos (e, sobretudo, que os dominem com precocidade e eficácia). Mas quando passa, simplesmente, pela periferia do coração, o conhecimento pode transformar-se no maior inimigo da sabedoria.
Dominar o conhecimento é tudo aquilo que quem não tolera o invisível mais procura. Ora, a luz (a dos olhos de quem nos põe «aberturas fáceis» no coração, como aquela que, de surpresa, nos coloca planaltos no olhar), não é um jeito de afrontar o escuro, mas a forma (amena) de não o tornar persecutório. Sendo assim, gostava muito que um dia, num mundo amigo da sabedoria a escola educasse para o invisível e desse a entender que nos transcendemos sempre um pouco mais quando quem nos ensina só deseja que aprendamos a namorar os motivos que o tenham levado a apaixonar-se por tudo o que aprendeu.

2
Aprender será, sempre, reconhecer. Reconhecer no sentido de reaprender as pequenas diferenças que nunca se tinham vislumbrado em tudo o que sabemos (tornando cada conhecimento mais simples, mais útil e mais humano). E reconhecer como sinónimo de gratidão para com aqueles que tenham percebido que a tarefa preponderante de um educador não é fornecer conhecimentos mas não deixar que se apague o nosso desejo de aprender.
Infelizmente, a escola recebe pessoas com magia e não descansa enquanto não as transforma em crianças normais. Pessoas com magia são, por exemplo, os que «andam nas nuvens», as «cabeças de vento», ou as «línguas de perguntador». Ligam família e escola, imaginação e fantasia, amor ao conhecimento com paixão pelo desconhecido. Já as crianças normais aprendem pela periferia do coração. Dominam os conhecimentos (com que fazem frente ao invisível) e privilegiam os resultados ao caminho que se tenha calcorreado até os conquistar. (É por isso – suponho eu – que os maus alunos tiram, imperativamente, boas notas e os bons aprendem com os erros).
Será a escola inclusiva para todos? Não! Como não o é para os que «andam nas nuvens», os «cabeças de vento», ou para as «línguas de perguntador». Nem para os pais. Menos, ainda, para os recreios. Aliás, a escola nunca devia ser inclusiva! Incluir não é integrar. Incluir é, muitas vezes, amalgamar o que nos distingue numa ideia – totalitária – de pessoas normais. Integrar é acarinhar as diferenças: só as escolas plurais são… universidades. E só quando casam aprender e brincar são… jardins-de-infância. Na verdade, uma escola amiga da sabedoria será, ao mesmo tempo, universidade e jardim-de-infância.

3
Sempre que, entre duas pessoas, se pressente magia nasce uma escola. Logo que não entendam o invisível fecham-se para a sabedoria. Daí que o insucesso escolar aclare a dificuldade de família e escola aprenderem, sobre o invisível, uma com a outra. Se o insucesso escolar representa o desamparo com que uma criança vê a família não se assumir como provedora da escola, o abandono escolar diz-nos quanto a escola pode ir do desamparo ao descuido. É por isso que acredito que, quando uma criança abandona a escola, já foi, inúmeras vezes, abandonada por ela. Sendo assim, sempre que uma criança a abandona, a escola não será, seguramente, amiga da sabedoria e, por isso (no formato que adopta e nas rotinas que alimenta) devia fechar.
Afinal, logo que todos os alunos puderem ter necessidades educativas especiais, sempre que a magia for amiga da sabedoria, e os professores forem, unicamente, aqueles para quem a luz não é um jeito de afrontar o escuro, todas as escolas serão universidade e jardim-de-infância. E só aí o primeiro dia de escola será, ao mesmo tempo, um regresso a casa.

 

Eduardo Sá

 

BRINCAR É PERIGOSO. Outro diálogo improvável

Mãe, posso ir brincar para aquela árvore?

Não Miguel, que ideia! Sabes que é perigoso subir as árvores.

Mãe, posso ir jogar à bola com aqueles miúdos?

Miguel, não vês como eles andam aos encontrões e caem, podes magoar-te.

Mãe, posso ir dar cambalhotas na relva?

Miguel, tens cada lembrança, dar cambalhotas na relva. Não vês que está suja das pessoas passarem e podes apanhar doenças.

Mãe, posso ir ali ao bebedouro beber água?

Espera mais um pouco. Estão lá uns miúdos, podem meter-se contigo. É preciso ter muito cuidado com quem a gente não conhece.

Mãe, posso ir para ali correr para assustar os pássaros?

Miguel, já devias saber que quando te metes em corridas quase sempre cais e podes ficar magoado.

Mãe, posso fazer o quê?

Olha Miguel, deixas-te estar aqui sentado no banco ao pé da mãe que está a ler. Quando passar o senhor dos gelados compro-te um dos que gostas e um sumo dos que estás sempre a pedir. Se te portares bem, é claro.


Zé Morgado

 

PARECE OUTRO. Mais um diálogo improvável

Estou muito contente com o seu filho. O Tiago parece outro.

Eu também o acho diferente.

Ele que não se calava um segundo, parecia um papagaio, agora está quase sempre calado. Parece mesmo outro.

Lá em casa também fala muito pouco e antes, às vezes, já nem podia com a voz dele sempre nos ouvidos, a toda a hora.

Olhe, na sala, o Tiago não conseguia estar sentado, sempre a levantar-se e a meter-se com os colegas. Agora está no lugar dele, quieto. No outro dia, ele disse-me que não, mas até me pareceu que tinha adormecido. Parece outro.

Também acho que em casa anda muito mais calmo, ao fim da tarde, às vezes, até adormece no sofá enquanto espera para jantar, nem a PlayStation que não larga o mantém acordado.

É mesmo, o Tiago parece outro.

 

 

A mãe também achava que depois de começar a tomar a medicação que o médico tinha mandado, o seu Tiago parecia outro. Mas na verdade já sentia muitas saudades do Tiago, quando ainda não era outro.

 

Zé Morgado

 

 

Todas as crianças com mais de cinco anos têm direito a desabafar.
Todas as crianças até aos onze ou doze anos têm direito a andar grátis no Carrocel quando estão de férias.
Todas as crianças que andam na Escola têm direito a serem alegres, terem amigos e brincarem com os outros. Têm o direito a ter uma professora que não grite com elas.
Todas as crianças têm o direito a ver o mar verdadeiro, especialmente em dias de maré vazia.
Todas as crianças têm direito a, pelo menos uma vez na vida, escolher um chocolate que lhes apeteça.
Todas as crianças têm direito a pensar e sentir como lhes manda o coração, até serem velhas, aí com uns vinte anos.
Todas as crianças têm direito a terem em casa o Pai e a Mãe, os irmãos (se houver) e comida. Se o Pai e a Mãe não conseguirem viver juntos têm o direito a que cada um deles respeite o outro.
Todas as crianças têm direito a deitarem-se no chão para verem as nuvens passar, imaginando formas de todos os bichos do Mundo combinado com coisas que quiserem (por exemplo, um cão a andar de patins ou uma girafa de orelhas cumpridas).
Todas as crianças têm direito a chupar no dedo indicador que espetaram num bolo acabado de fazer ou então lamber a colher com que raparam a taça em que ele foi feito.
Todas as crianças têm direito a dormir numa cama sua, sentido o cheiro da cama lavada, a terem um espaço próprio na casa, pelo menos a partir do ano de idade.
Todas as crianças têm direito a passar na rua tentando pisar o empedrado branco (ou só o preto); em opção, têm direito a fazer uma viagem contando quantos carros vermelhos passam na faixa contrária.
Todas as crianças meninos têm direito a, pelo menos uma vez na vida, perguntar a uma menina “queres ser minha namorada?” e todas as crianças meninas têm direito a, pelo menos uma vez na vida, responder “sim quero”.
Todas as crianças têm direito a ouvir um adulto contar pelo menos uma destas histórias: Peter Pan, O Principezinho ou O Príncipe Feliz.
Todas as crianças têm direito a ter alegria suficiente para imaginar coisas boas antes de dormirem e depois, a sonharem com elas.
Todas as crianças têm direito a ter um boneco de peluche preferido, especialmente quando velho, já lavado e mesmo com um olho a menos.
Todas as crianças (especialmente se já adolescentes) têm direito a usar os ténis preferidos, mesmo que rotos e com cheiro tóxico.
Todas as crianças têm direito a tomar banho sozinhas e a experimentar mergulhar na banheira contando o tempo que aguentam sem respirar.
Todas as crianças têm direito a jogar aos polícias e ladrões, preferindo inevitavelmente serem ladrões.
Todas as crianças têm direito a ter um colo onde se possam sentar, enroscar como numa concha e receber mimos.
Todas as crianças têm direito a nascer iguais em direitos.
Todas as crianças têm direito a conhecer o sítio onde nasceram e a visitá-lo livremente.
Todas as crianças têm direito a não ficar sozinhas a chorar.
Todas as crianças têm direito a viver num País que tenha um Ministério da Infância e Juventude, que olhe verdadeiramente pelo seu crescimento afectivo e bem-estar interior (sem preconceitos adultocêntricos ou hipocrisias com ares de cromo abrilhantado).
Todas as crianças têm direito a acreditar que têm um adulto que olhe por elas e as ame sem condição prévia (nem que seja o Nosso Senhor).
Todas as crianças têm direito a viver felizes e a ter paz nos seus pensamentos e sentimentos.


in Crescer Vazio, Pedro Strecht

 

Educação para totós

Muitos pais enfeitiçam as crianças, tornando-as sapos, quando as transformam no seu precioso espelho mágico, ficando totós uns para os outros.

 

1. Nas histórias para as crianças há, regra geral, uma princesa adormecida (de preferência formosa) e um cavaleiro apaixonado que se propõe despertá-la, com um fogoso beijo nos lábios. É verdade que poucos pais consideram que esta tendência obstinada de um transeunte, cheio de amor-próprio, para incomodar (com beijoquices) o eterno descanso da princesa seja um mau exemplo para as crianças. E é verdade, também, que se fosse um filho nosso a beijar (mesmo por distracção) um sapo com quem se tivesse cruzado, em vez de despontar – de tão fortuita fortuna - um príncipe teríamos lá em casa uma zaragata à italiana. Por outras palavras: não há quem entenda a forma imprudente como os adultos põem aos beijos as personagens das histórias para as crianças…
Mas – pior ainda – o que me preocupa é que nessas histórias há sempre uma pessoa que dorme e outra que a desperta. E isto já é publicidade enganosa. Porque – todos sabemos – duas pessoas acordam sempre que aquilo que as liga as desperta, uma à outra, ao mesmo tempo. Aliás, eu  acho que, com as crianças, se passa, sensivelmente, ao contrário do que sucede às princesas e aos sapos: elas estão despertíssimas mas, mais beijo menos beijo, há sempre alguém que não descansa enquanto não as adormece, por dentro, e as transforma em totós. (Se pensava que o lado enganador das histórias para as crianças passava pela forma como elas falam, por exemplo, de fadas – como se fosse possível encontrá-las numa qualquer repartição – ou pelo engenho com que põem uns pares de renas e o Pai Natal às voltas pelo ar, está muito enganado…).

 

2. Histórias à parte, são muitas as circunstâncias em que os pais acumulam muitos créditos com os quais tornam as suas crianças um bocadinho adormecidas. Ou, se preferirem, um tudo-nada… totós. Daí que, para acabarmos, de vez, com esta tentação de transformarmos crianças despertas em totós adormecidos devemos dizer que:
- as crianças estão autorizadas a sujar-se. As crianças que não se sujam não são uns anjos: ainda não descobriram que serão pessoas melhores sempre que forem pequenos índios com coração e com maneiras;
- as crianças devem brincar, também, na rua. Sempre que só sentem a cidade através dos vidros do carro dos pais deixam de ser crianças: ficam macambúzias;
- as crianças precisam de descobrir o tempo livre. Quando têm uma agenda e nunca mandam nos seus minutos – pelo menos quando brincam – não são crianças. São burocratas de mochila;
- as crianças têm o «direito constitucional» de andarem de cabeça no ar. Sempre que alguém as quiser certinhas e crescidas ficam rezingonas. E só quando forem pais, com um sentimento que viveram adormecidos, é que irão perceber que só aprende quem põe ao leme, para sempre, a vontade de rir;
- as crianças têm o dever de crescer com a ajuda de algumas trapalhices, porque só as crianças trapalhonas sabem que o brincar é a melhor escola de todos os imprevistos;
- as crianças estão autorizadas a cair. Nunca caindo não aprendem a cair;
- as crianças devem lutar, várias vezes por semana. Primeiro, com almofadas, com os irmãos. Depois, no chão da sala, com o pai. E, a seguir, com os amigos, fora de casa. Se nunca lutam podem, até, parecer exemplares. Mas não são crianças: tornam-se «xoninhas»;
- as crianças têm o direito a não ser falsamente elogiadas. Sempre que as elogiam, como se fossem tolas, viram sapos. Podem até ser belas. Mas tornam-se adormecidas.

 

3. Nas histórias para as crianças há, regra geral, uma princesa adormecida (de preferência formosa) e um cavaleiro apaixonado que se propõe despertá-la, com um fogoso beijo nos lábios. Mas, na verdade, quem estraga as histórias das princesas adormecidas não são nem os dragões nem as maçãs envenenadas. Nem o riso sarcástico das bruxas. Nem, muito menos, o lobo mau, o capitão Gancho ou a Maga Patalógica São mais os espelhos mágicos. E, pior, muitos pais enfeitiçam as crianças, tornando-as sapos, quando as transformam no seu precioso espelho mágico, ficando totós uns para os outros. E, mais beijo menos beijo, esquecem que, ao contrário das histórias, as pessoas só acordam sempre que despertam, umas para as outras, ao mesmo tempo.

 

Eduardo Sá

 

O RAPAZ QUE NÃO GOSTAVA DE REGRAS

Era uma vez um Rapaz. Era ainda pequeno, e não havia naquela escola rapaz mais avesso às regras. Nas mais das vezes, não lhes ligava. Os professores, vá lá saber-se porquê, não apreciavam particularmente o estilo. O Rapaz divertia-se.

Um dia, um dos professores contou o Rapaz ao Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros. O Professor Velho pediu para o Rapaz ir falar com ele. Quando chegou, o Professor Velho, dizendo que uma biblioteca serve para estudar e para brincar, convidou-o para brincar, o que deixou o Rapaz mais descansado. Mostrou-lhe quatro jogos, para ele escolher o que mais gostava e melhor sabia jogar. Prepararam-se para começar a jogar.

Rapaz, sabes mesmo como se joga este jogo?

Claro que sei e bem, posso começar?

Podes, mas vamos jogar de outra maneira, mexemos no jogo como queremos, não é preciso esperar pela vez e fazemos no jogo o que nos passa pela cabeça.

Ó Velho, mas assim não se pode jogar.

Pois não Rapaz. Todos os jogos que a gente joga têm regras. De umas gostamos, de outras, dá ideia que o jogo até ficaria mais giro sem elas, de outras ainda, não gostamos, mas não há maneira de jogar sem regras. Agora, vai para a sala e vê lá como é que jogas.

Tenho que saber as regras.

 

Zé Morgado

 

AS REGRAS. Outro diálogo improvável

Pois é João, estou cansado repetir a mesma coisa e tu não ligas nenhuma.

Mas é o quê pai?

A tua mãe disse-me que … Oops! Só faltava esta. Vai um tipo cheio de pressa, só me faltava apanhar estes gajos da Brigada de Trânsito na auto-estrada. Agora vamos atrás deles, sei lá até onde, armados em totós.

Mas porque é que não ultrapassas o carro da polícia pai, lá atrás vinhas com bué de velocidade e agora vais bué devagar.

Porque os gajos depois vêem a velocidade, aqui só se pode andar a 120, és parvo ou quê?

Ganda seca, logo tinham que vir para aqui.

Pai, o que é que ias a dizer há bocado antes da polícia.

É verdade, já me esquecia, quantas vezes é preciso dizer que tens de cumprir as regras que eu e a tua mãe te dizemos. Estás sempre a desobedecer, tenho de me zangar a sério contigo.

Mas pai, …

Até que enfim que os gajos da polícia entraram ali na bomba de gasolina, já podemos acelerar outra vez. O tempo que perdi, quase meia hora sem passar dos 120. Eu não tenho a vida deles. Para acabar a conversa, de uma vez por todas vê se te comportas como deve ser. Ouviste?

 

Zé Morgado

 

Provavelmente

Vou contar-vos uma história do meu querido amigo João Carlos Gomes Pedro. Irei, seguramente, adulterá-la. Porque não conseguirei reproduzir todo o afecto com que a escutei. Mas a sabedoria que ressalta da história é tão contagiante que decidi, com a licença do meu amigo, compartilhá-la convosco.)



1. Era uma vez um rei que reuniu todos os sábios do seu reino e pediu-lhes que resumissem toda a sua biblioteca num só livro. Os sábios protestaram, considerando que a tarefa estaria muito para além do seu engenho. Como o rei não lhes deu alternativa, resignaram-se e, cinco anos depois, trouxeram-lhe um livro com 600 páginas. O rei, depois de o ler, chamou-os. E pediu-lhes que o resumissem numa folha. Os sábios, se bem que tenham protestado, recolheram-se por cinco anos mais, tentando cumprir a sua vontade. Depois de ler a folha, o rei convocou-os, uma última vez. E pediu-lhes que a sintetizassem numa única palavra. Recolhidos de novo, os sábios, ao fim de cinco anos, regressaram com tão engenhosa tarefa já vencida. Entregaram-lhe um pequeno papel, onde, com delicadeza, a traziam escrita. O rei, desdobrou o papel e leu-a, de forma atenta e curiosa. A palavra era: «provavelmente».


2. Há muito tempo, chamava a atenção para o modo como as crianças, primeiro, aprendem a dizer «não». Só depois, dizem «sim». Mais tarde, usam o «porquê». Para que, de seguida, digam «eu». «Provavelmente» será, entre todas as palavras, aquela para a qual as crianças estão aptas, desde sempre, para compreender mas só quando se tornam sábias a irão aprender a usar. Talvez porque só quem diga «não» e «sim», «porquê» e «eu», ao mesmo tempo, consiga – então – dizer «provavelmente». 


3. O que me parece fascinante é que as crianças, logo depois de dizerem «porquê», pareçam tão capazes de dizer «provavelmente». Dizem-
-no, de forma mais ou menos implícita, quando, por exemplo, ainda muito pequenas, usam «termos caros» e, sem saberem o seu significado os utilizam de forma irrepreensível. Tudo como se dissessem, por outras palavras, «provavelmente». Porque é que, então, quem está tão apto, desde tão cedo, para ler o mundo e as pessoas, se torna, tantas vezes, incapaz de ser amigo da leitura? Se nascemos tão capazes de ler o significado das palavras, e de o ler nas entrelinhas, o que fará com que as palavras se tornem, tantas vezes, inimigas da leitura? Porque é que, aparentemente, a escola – quando não deixa que se converse ou quando manda de castigo um aluno para a biblioteca – parece estragar a capacidade que todos temos para dizer «provavelmente»?


4. Não é possível que as crianças aprendam sobre tudo enquanto desconhecem quem têm junto a si. Sendo assim, aprendem a ler quando, na dança de apelos que existe entre o bebé e a mãe, ganha sentido uma fórmula cara a Hugo: «lê-me, lê-me para que eu te possa ler». Antes de lerem palavras as crianças interpretam sentimentos, numa reciprocidade em que é expectável que a mãe lhos legende de acordo com aquilo que eles sentem. Ler não é, então, juntar letras e palavras: é conjugar sentimentos. Mas, sendo assim, quando começamos a ler: quando se articulam os sons e os transformamos em palavras, ou quando as interpretamos? Quando interpretamos as palavras. Mas será que interpretamos os outros sem nos interpretarmos neles? Não! E é possível ler sem escutar? É.


5. Por outras palavras: sentir é interpretar. E, sendo assim, aprende-se a ler nos olhos de quem nos lê. Os livros, esses, lêem-se nos olhos de quem no-los lê. Ou, ainda (como se fosse uma operação matemática): ver x escutar = ler! Isto é: a educação musical e a educação visual são os melhores amigos da leitura. Já escrever supõe que sinto, que vejo, que escuto e que desenho. Ou seja: um corpo mal-educado para a tonicidade, para o movimento e para o ritmo zanga-se com a escrita. Já escutar e desenhar, dizer «não» e «sim», «porquê» e «eu» tornam-nos, então, capazes de transformar todos os livros num só «provavelmente».

 

Eduardo Sá

 

DEMASIADO PERTO, OS OLHOS NÃO VÊEM BEM

Era uma vez uma Mãe de um Rapaz. Era o seu primeiro filho e toda a vida sonhara ser mãe. Não havia no mundo mãe que gostasse mais de um filho que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais preocupada que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais atenta que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais presente que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais disponível que esta Mãe. Não havia no mundo mãe mais próxima do filho que esta Mãe.

Só que o Rapaz parecia desconfortável e às vezes, cada vez mais vezes, reagia mal a tanta mãe. A Mãe começou a ficar perplexa e perdida, e com o tempo, ainda mais perdida e perplexa.

Um dia encontrou no parque aquele Velho que sabia ler as pessoas que, quando a ouviu, pensou alto.

"Por mais que a gente goste dos filhos, eles não podem ser usados e guardados só no coração. Também têm de ser usados e guardados na cabeça e nos olhos. Demasiado perto os olhos não conseguem ver bem e, por isso, a cabeça não entende”.

Naquela noite ao jantar, a Mãe, ao ver o Rapaz do outro lado da mesa, reparou como ele estava crescido e tinha uns olhos bonitos. Como os dela, que já viam.

 

Zé Morgado

 

O melhor do mundo é o futuro

As crianças não são verdadeiras ou falsas: são Amadas ou descuidadas. Precisam de se chegar a quem se chegue a elas, através de um mesmo adivinhar. Quando isso não acontece, tornam-se enfadonhas.

 

1. Moram, em cada criança, inúmeras histórias verdadeiras, sonhos e ideias. Moram vilões e magos. Moram personagens carinhosas e velhacas. Moram milhares de pessoas que, com os anos, se transformam em vultos mais ou menos imprecisos. E um ou outro viajante acidental que, de surpresa, lhes deu luz, ou alma ou vida. E episódios. Muitos que magoam. E alguns, mágicos, que nem sempre os conseguem compensar.

É assim o mundo das crianças. Não é nem cor-de-rosa nem cândido. Não é bucólico nem sagaz. É igual ao nosso. Simplesmente. Difere pelos anos de histórias, de sonhos e de ideias que temos a mais. Pelo número das personagens (que se multiplica). Pela imensidão dos vultos, também. E difere, ainda, porque esperam que, aos nossos olhos, no mundo delas, tudo tenha um sentido, dado por nós. (No nosso, o sentido parece perder-se, muitas vezes, na hostilidade e no enfado com que se vivem os dias). Não é, portanto, verdade que a infância seja o melhor dos mundos. Se a infância de todos os pais tivesse sido feliz talvez eles não precisassem de a idealizar. Simplesmente, porque sempre que somos felizes o melhor do mundo é o futuro.

É fácil que - entre tantas histórias, episódios e pessoas – as crianças tenham, ao mesmo tempo, o olhar mais aberto e se tornem um bocadinho mais desconhecidas de si próprias. Quanto mais mundo têm nos seus olhos mais precisam dos outros para o pensar. Sobretudo, mais precisam dos pais. Na verdade, não são nem mais espertas nem mais atentas do que eles. É a forma como são adivinhadas que as leva a sentirem-se clarividentes. E é por isso que têm ânsia de futuro.

 

2. As crianças ou aprendem a adivinhar ou resignam-se a falsear. Adivinham quando quem lhes fala verdade confirma aquilo que elas sentem nos seus olhos. Falseiam quando aquilo que sentem se desencontra do que lhes falam. Não são, portanto, verdadeiras ou falsas: são amadas ou descuidadas. Seja a propósito de histórias, de sonhos ou de ideias, de personagens ou, até, de brumas, precisam de se chegar a quem se chegue a elas, através de um mesmo adivinhar. Quando isso não acontece, as crianças tornam-se enfadonhas. Por não conseguirem dizer a quem as devia conhecer melhor do que elas próprias se conhecem que, de tão distraído, as está a falsear.

Talvez toda a mentira comece aí. Mas represente (ainda assim) uma oportunidade que se dá à esperança de se ser descoberto.

Todos mentimos, portanto. Dramaticamente, para a maioria das pessoas, a diferença é que, quando somos pequenos, mentimos aos outros (para que, através de uma mentira, nos certificarmos que quem gosta de nós nos conhece).

E, à medida que crescemos, mentimos a nós mesmos. O que só é possível quando a nossa necessidade de pessoas se acompanha de experiências que acumulam desamparos.

 

3. Talvez seja por isso que, à medida que crescem, aquilo que muitos pais perdem no sorriso o seu mundo ganhe em hostilidade e em enfado. E, com isso, sendo boas pessoas, se transformem (pela infelicidade que acumulam) em maus pais.

Pais sem esperança de serem descobertos desconhecem as histórias, as personagens, os viajantes e os episódios que há dentro de uma criança.

E afastam-se.

São azedos,

austeros,

exigentes

e insatisfeitos.

E tornam-se batoteiros quando, ao mesmo tempo que se dizem disponíveis para adivinhar, não deixam que ninguém os adivinhe.

4. Como todos os pais, também eu aprendi, ao brincar com bebés, a comparar o rosto a uma casa. Os olhos como janelas, a boca a fazer de porta, e o nariz de campainha. Sempre que os bebés são adivinhados, abrem-se a porta e as janelas. Quando não são, o mundo das crianças ganha um «sótão» (onde se guarda tudo o que imaginam) e uma «dispensa» (onde arrumam aquilo que será bom nem recordarem). É assim o mundo de muitos pais. Um mundo – entreaberto - de portas e de janelas. Um mundo onde parece faltar quem faça de escadas entre a dispensa e o sótão. Um mundo onde já não se voa de pés no chão (o que só acontece quando somos adivinhados). É por isso que eles imaginam que o melhor dos mundos é a infância. E mal reparam que (para quem adivinha) o melhor do mundo é o futuro.

 

Eduardo Sá

 

HISTÓRIAS. Mais um diálogo improvável

Mãe, hoje lá na escola, o meu amigo Tiago contou uma história muito gira que lhe tinha acontecido. Foi com o Pai à praia para lançar a voar um papagaio de papel muito grande, que o tio lhe tinha dado. Como estava muito vento foram agarrados ao papagaio. Disse que é bonito ver as casas lá de cima, ficam muito pequeninas. Andaram a voar muito tempo e só desceram quando o vento parou. É mesmo giro, o Tiago e o Pai a voarem agarrados a um papagaio.

Ó Rapaz, és mesmo parvo. Então tu acreditas em histórias dessas?

Acredito e gosto de acreditar.

Está bem, tu é que sabes. Olha, agora ficas aqui a brincar um bocado sozinho que eu vou ver a novela da televisão. É tão bonita, parece mesmo verdadeira, às vezes até me faz chorar.

 

Zé Morgado

 

Juramento dos amigos da escola

Eu, abaixo assinado, declaro, solenemente, que lutarei para que uma sociedade aberta ao conhecimento, não se construa à margem da pergunta e da diferença, nem das histórias, do brincar ou da conversa. Porque uma escola que fratura humanidade e conhecimento (ou que divide os alunos, distinguindo os diferentes dos iguais ou os que aprendem dos que têm necessidades educativas especiais) ouve mas não escuta, exige atenções mas é desatenta. E, sendo assim, reclama-se inclusiva mas não será acolhedora.

E, declaro ainda, que lutarei (até que vença) para que se reconheça - com respeito pela dignidade das pessoas e pelo futuro - que o melhor indicador de sucesso educativo não é, nem nunca foi, a empregabilidade, mas que será, para sempre, a sabedoria. Se a empregabilidade representa uma visão de mundo, onde os valores do dinheiro fazem com que a paixão seja pilhada e capitule, só quando sabedoria e trabalho se casam um com o outro, ligam a humanidade dos gestos, a ousadia de nunca se deixar de perguntar «porquê?», a lealdade de interpelar e de contrapor, o arrojo de pensar e a clarividência de empreender, que distinguem quem ama (a vida, as pessoas e o conhecimento) daqueles que, tenham os sonhos que tiverem, se resignam a ser, mansamente, adaptados.

Eu, abaixo assinado, comprometo-me solenemente a estar distraído sempre que um professor não tiver um jeitinho especial para me render aos encantos do que ensina. E que farei por exigir autoridade a quem, somente, exiba disciplina. E declaro, ainda, que, honrando isso, tudo farei para me insubordinar contra todos aqueles que confundem democracia de oportunidades com mediocridade e sucesso educativo com exigências minimalistas (que, ao adoçarem as notas, mentem sobre a forma como todos temos, premeditadamente, descuidado a educação). E declaro, por fim, que lutarei por demonstrar que aprender com gosto é e fácil e é bonito, mas que o rendimento sem alma é humilhante e um embuste.

E comprometo-me a reconhecer que a escola jamais será, unicamente, um local para desenvolver (algumas) competências mas que ela serve, sobretudo, para nos educarmos uns aos outros. E, só depois, para aprender. E que, sejam quais forem as circunstâncias em que o exijam, nunca irei pactuar com essa vertigem esquizofrénica que acarinha quem repete e que castiga quem copia.

Eu, abaixo assinado, declaro solenemente que a escola é um formidável complemento aos cuidados da família e reconheço que muitos professores, pela bondade e pela sabedoria com que nos iluminam, dão mais crédito ao desafio do crescimento que muitos tios e que muitos pais. E que, por isso mesmo, serei, para sempre, contra toda a educação que se dirija mais para a vaidade do que para a admiração, onde as pessoas, depois de aprenderem, sejam mais facilmente instigadas a reconhecerem os enganos dos outros do que a aprenderem com os seus, e a subtrair (qualidades) do que a fazer a diferença. Porque um mundo que acarinha as aparências em prejuízo da integridade (um mundo onde a demagogia inquina a política ou o populismo enviesa a justiça) mascara e mente mas não admira e não aprende. E um mundo assim terá na escola, para sempre e por amor à verdade, um adversário que jamais se deixará vencer.

E comprometo-me ainda a empenhar-me para que pontos de vista contraditórios nunca nos deixem de encaminhar para sínteses íntegras, simultaneamente mais complexas e mais simples, mais singulares e mais plurais, que não favoreçam a exibição do conhecimento mas que o desafiem para a clarividência diante das dúvidas (e que reconheçam, com humildade, que tem faltado fé ao conhecimento - fé nas pessoas e fé no futuro - e que conhecimento sem boa fé não é conhecimento mas, antes e só, obscurantismo).

Por tudo aquilo que acabei de ler, que será objeto de juramento e que irei assinar, declaro estar unicamente disponível para o regresso às aulas (porque a escola são todos os lugares onde há quem nos ensine que quem aprende com os erros nunca foge às responsabilidades. E que só assim se admira, se é íntegro, se aprende e se educa).

 

Eduardo Sá

 

O RAPAZ QUE SE RIA

Era uma vez um Rapaz que estava quase sempre a rir. É verdade, em qualquer circunstância que se olhasse para ele parecia estar com um sorriso pendurado no rosto.

As pessoa estranhavam e algumas irritavam-se, convencidas de que o Rapaz estava, por assim dizer, a gozar, coisa que, como se sabe, os rapazes não devem fazer.

Na escola o Rapaz não tinha a vida fácil, os professores, de uma forma geral, detestavam ter nas suas aulas um Rapaz que estava quase sempre a rir. Algumas vezes foi mesmo posto fora da sala por não saber explicar porque se ria.

Não é de admirar, as pessoas gostam sempre de perceber a razão que leva os outros a comportarem-se desta ou daquela maneira e estar sempre a rir é uma maneira estranha, está bom de ver.

Com os colegas, alguns deles, a coisa às vezes também se complicava. Achavam o Rapaz com um ar trocista e surgiam os problemas.

A família do Rapaz, apesar de mais habituada ao seu riso, também se embaraçava com ele, sobretudo na presença de pessoas que o consideravam impertinente.

Com o tempo, o Rapaz que se ria foi sentindo que o mundo não lidava muito bem com as pessoas que se riam. O mundo gosta mais das pessoas com ar sério. Até se diz que muito riso, pouco siso.

As pessoas com ar sério não perturbam o mundo. E assim tudo corre bem.

A sério, não se riam.

 

Zé Morgado

 

O TRABALHO DE CASA. Um texto esquisito

Rodrigo, não há uma única vez que te pergunte pelo trabalho de casa que o tenhas realizado. Assim, não é de ficar admirado com as nota que tens, porque não fazes o trabalho de casa?

Setôra, vou tentar explicar. O meu contexto familiar tem algumas características particulares, específicas. O meu pai está desempregado há uns dois anos e a minha mãe, que trabalha em situação precária em limpezas teme ser despedida também, chora pelos cantos embora procure disfarçar. O meu pai já desistiu de ler anúncios e ir a entrevistas. Já lhe expliquei que é preciso sair da zona de conforto e até tentar a emigrar, mas ele diz que lhe custa deixar a família nesta situação. Também lhe disse que é preciso ser optimista e ver no desemprego uma oportunidade mas ele achou que eu estava a gozar e quase me batia. O meu irmão, o João, a Setôra conhece, ele andou aqui na escola, desistiu de estudar e também não consegue arranjar trabalho. Expliquei-lhe que é preciso ser empreendedor, os jovens devem ser empreendedores, criar o seu próprio emprego mas ele não percebeu o que eu estava a dizer e também ia apanhando com um sapato que ele me atirou. A situação já não estava fácil, acontece que a minha irmã Cátia também ficou com o marido desempregado e como não podiam pagar a casa, teve que ficar sem ela e vieram viver para a nossa. Ficou com o quarto que era do João e meu e nós dormimos na sala. O meu avô já quase não pode andar mas mesmo assim ainda vai durante o dia para o Centro Paroquial que o vem buscar e trazer. O ambiente não é o melhor mas procurei dizer que também era bonito ter assim a família toda junta, várias gerações a conviver, mas ficaram todos a olhar para mim, pensei que me queriam bater, mas não, só me chamaram maluco. Compreende a Setôra que as condições objectivas não são muito favoráveis à realização do trabalho de casa. Aguardo uma nova oportunidade, os jovens não devem desistir mas, na verdade, não está fácil.

Rodrigo ... estou ... sem palavras.

Pois é Setôra, eu, como a Setôra pode verificar ... palavras tenho. Só me falta ... o resto.

 

Zé Morgado

 

OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL - Um bilhete para casa

Professora, pode escrever um bilhete para os meus pais, assim como às vezes manda?

Escrever um bilhete para os teus pais? Mas a dizer o quê Tiago?

Mas pode escrever?

Está bem, posso escrever. Mas que queres tu que eu escreva aos teus pais?

Escreva assim, o Tiago é quase um bom aluno.

Tudo bem e mais.

Não faz muitos disparates.

Certo, mais alguma coisa?

Quase sempre faz as coisas todas. Lê bem e faz os problemas. Às vezes engana-se nas contas e também se distrai, mas é poucas vezes. O Tiago porta-se quase sempre bem e só faz disparates pequenos.

Estou a achar graça Tiago, queres que escreva mais alguma coisa?

Só mais uma coisa Professora. Escreva assim, o Tiago é um aluno inteligente como a irmã.

Mas Tiago, porque queres que eu escreva isto tudo para os teus pais?

Professora, estou sempre a dizer estas coisas mas acho que eles não acreditam, dizem que eu não sou assim. Se a Professora escrever, eu acho que eles vão acreditar. Eu gostava que eles acreditassem.

 

Zé Morgado

 

Coligação de singularidades

Gosto das cadernetas do aluno como um instrumento de comunicação entre a escola e os pais. Como uma forma de dizer às crianças que nada do que deve ser do conhecimento da família passa à margem da sua atenção e deixa de ser sufragado por ela.

 

1.

Gosto das cadernetas do aluno como um instrumento de comunicação entre a escola e os pais. Como uma forma de dizer às crianças que nada do que deve ser do conhecimento da família passa à margem da sua atenção e deixa de ser sufragado por ela. E servindo para recordar à escola que os pais delegam, com respeito, responsabilidades educativas ao cuidado da sabedoria dos professores. Já me custa que, vezes demais, a caderneta do aluno seja um muro de lamentações ou um rol de queixinhas. De parte a parte. Como se pais e professores, em vez de se educarem uns aos outros, comunicando os gestos de forma clara e expedita, fossem de lamento em lamento. E, mais do que reconhecerem dificuldades ou trocarem fórmulas educativas de sucesso, encontrassem na caderneta um libelo acusatório onde, quem redige, se excluiu de quaisquer responsabilidades pelas situações criadas por uma criança. Atribuir culpas sem reconhecer responsabilidades é configurar a caderneta do aluno como um tablóide sem função informativa e transformar uma criança num carteiro de queixinhas. As queixinhas nunca são um bom exemplo de sensatez para a educação de ninguém. E, embora haja quem as acarinhe e, até, estimule, são mais bullying do que pode parecer.

Ora, repete-se, muitas vezes, esta vertiginosa tentação para a queixinha da parte de todos os agentes educativos. Como se, em vez dum envolvimento conjunto e responsável, na procura de soluções inovadoras para a que a escola se torne num lugar melhor e mais bonito, todos parecessem mais ou menos dominados pelas experiências que terão tido na sua relação com ela. Afinal, quando os pais se insurgem, em surdina, contra alguns professores, ou depreciam (ao jantar) as respectivas qualidades, estão a educar os filhos para a sabedoria ou estarão a vingar-se, com anos de atraso, da escola que os maltratou e em que cresceram? Afinal, quando os professores esticam o dedo e, entre-dentes, acusam os pais, por tudo e por nada, estão a querer educar as crianças ou estarão a reconhecer neles muitas das omissões que, hoje, reconhecem nos seus? Afinal, para que serve a escola? Se a escola não serve para educar, para que serve a escola? Se a escola não serve para ajudar a pensar, para que serve a escola? Se a escola acarinha o repetir e castiga o recriar, para que serve a escola?

2.
Diante dum erro, ou o escutamos, e nos tornamos inteligentes, ou o iludimos, e ficamos estúpidos. Somos, portanto, sempre parte do problema e parte da solução. Constatar um problema e assumirmo-nos estranhos a ele só acontece quando o problema somos nós. Será assim com a escola como connosco. Mas, então, a educação deve tornar-nos todos, em relação a ela, parte do problema e parte da solução. Admito poder estar enganado, mas a escuta é o início da tolerância e a humildade o princípio da sabedoria. E, em relação à escola - de quem governa, a muitos pais e a alguns professores - tem faltado escuta e humildade.

Uma escola que considera o estudo acompanhado ou a área de projecto como luxo está, perigosamente, a deixar de sê-lo. Como deixa de o ser quando penaliza os «cabeças no ar» e incentiva os «cabeças no chão». Como deixa de o ser quando castiga os faladores (que é quem mais ela devia acarinhar). Como deixa de o ser quando cria mestres aos 23 e, antes de começarem a viver, espera que sejam ídolos, antes dos 30. Como deixa de o ser quando não percebe que as crianças que procuram, compulsivamente, o sucesso ou são deprimidas ou vivem assustadas. Como deixa de o ser quando não percebe que a contrapartida da sabedoria é o mistério (ou, se preferirem, o encantamento para com o invisível).

 

3.
Muitas vezes, alguns jornais, fazem de caderneta do aluno e, argumentos sensatos à parte, reproduzem queixinhas. Tem sido, infelizmente, um pouco assim a propósito da reformulação dos contratos de associação que o Governo determinou, a meio do ano lectivo, e da reacção a ela que colégios e associações de pais trouxeram para a rua. Começando pelo princípio, a educação não é um direito das crianças: é um imperativo para todos. Sendo assim, parece-me indiscutível o direito público à educação. Que o Estado, na douta prudência de quem desenha políticas e as configura, determine de que forma o ensino público e o privado podem conviver, será indispensável para que todos nos sintamos esclarecidos. Sendo certo que o direito público à educação tem de merecer critérios musculados de qualidade. Dou dois exemplos da forma como se fere o direito público à educação... Reformar o parque escolar das escolas públicas, tendo deixado que muitos dos seus professores mais qualificados a tenham abandonado, corre o risco de transformar uma reforma numa lipoaspiração. Ou permitir que nalgumas escolas privadas, com contrato de associação com o Estado, exista pó de arroz nos critérios de classificação, ou aceitar que, em relação a algumas crianças que a elas recorrem, haja reserva no direito de admissão, é uma afronta ao direito público de educação. O que está em causa é que o Estado deve ser quem define políticas, quem desenha formas de as executar, quem estima gastos, quem inspecciona e quem pune incumprimentos. Um mundo onde todos se educam a todos é um mundo novo. Longe da produção industrial de mestres e mais perto da humanidade sem a qual não nos tornamos pessoas. O outro só se torna pessoa quando passa a ser parte de nós.

4.
Torna-se, pois, urgente que, em vez de se instrumentalizarem crianças e campanhas políticas, e no lugar da contínua ausência de política educativa, haja um pacto de regime através do qual se assuma o que se quer da escola e da escolaridade das crianças. E que, queixinhas à parte, governo e oposição não sintam o diálogo e o compromisso como uma cedência mas como um exercício de sabedoria. Aliás, quando se multiplicam os estudos que elevam as carências das crianças que frequentam as escolas, chegou altura de sabermos se os diversos agentes educativos compreenderão que raciocinar significa pôr problemas e resolvê-los; ir da sensibilidade à palavra e passar das palavras para os actos; organizar um acto com princípio, meio e fim; e dar-lhe uma dimensão prática e empreendedora. Sem nunca esquecer, com Bach, que aprender é um efeito colateral da paixão.

No limite, não compreendo o que pode ter de chocante uma gestão autárquica ou, mesmo, privada da educação. Se, no limite, a gestão de meios for mais ágil e mais eficaz, se o envolvimento dos recursos humanos se tornar mais racional e mais acolhedor, se, com tudo isso, as inspecções forem rotinas que não sejam sentidas como um exercício batoteiro e oportunista mas como uma oportunidade formativa, não compreendo porque terá de ser o Estado patrão, em quaisquer circunstâncias, da educação. Aliás, aquilo que tem acontecido com algumas escolas privadas, com contratos de associação com o Estado - em locais onde os meios públicos, colocados ao serviço da educação, escasseiam - é um bom exemplo duma paz possível.

Entendo um sistema misto onde escolas privadas concorrem com escolas públicas, desde que os critérios de desempenho de umas e outras sejam rigorosos e transparentes. E desde que fique claro que, ensino privado à parte (onde os pais conhecem, à partida, os compromissos que uma opção como essa comportará) o acesso ao ensino (público ou privado, com contratos de associação com o Estado) será obrigatório e não encontrará entraves (a não ser, aqueles que estão previstos na Lei). Embora me pareça publicidade enganosa os rankings onde umas e outras são colocadas em paridade (quando, de facto, desde as condições de espaço, aos alunos a que se dedicam e aos problemas com que se defrontam sejam, em quase tudo, profundamente díspares).Já sistemas onde as funções do ensino público, do ensino privado e do ensino privado com contrato de associação não são claros tornam-se amigos da demagogia. Será a escola pública capaz de acolher todos os alunos que, neste momento, se encontram abrangidos pelos contratos de associação que o Estado tem com algumas escolas privadas? Será razoável que haja escolas públicas com disponibilidade de acolhimento de alunos, mas sem recursos, a concorrerem, num mesmo local, com escolas privadas com contratos de associação? Serão os critérios de gestão de umas e de outras igualmente racionais e ponderados? Estarão todas as escolas privadas, com contrato de associação, a criar condições para um acesso mais justo ao ensino de todas as crianças ou existirão algumas que, a pretexto duma contestação, em nome dos alunos, vêem fugir oportunidades dum enriquecimento (moralmente) ilícito? Será justo que o Estado, sem definir previamente quaisquer critérios, pactue com alguns contratos de associação que poderão representar formas de acentuar discrepâncias no acesso à educação, pagas com o dinheiro de todos? E a reformulação dos contratos de associação, não devia ter sido anterior aos constrangimentos económicos que o Estado, agora, enfrenta, e não devia ser pautada por uma política educativa que integrasse as diversas respostas num todo articulado? E - vamos imaginar - que, por desleixo, foram concorrendo, em áreas adjacentes, ensino público e ensino privado, com contrato de associação, e que, num ou noutro caso, este último optimiza melhor os recursos e preste melhor serviço público? É critério que o Estado se refugie numa clivagem público/privado, penalizando a eficácia? Não é verdade que a clivagem entre a qualidade das escolas e dos professores não se mede pelo facto de serem ensino público, ensino privado e ensino privado com contrato de associação? Tem algum sentido tomar-se a escola como uma disputa político-partidária, onde os critérios se esgotem na disputa entre aqueles que são a favor da escola público e os que defendem o ensino privado? E será razoável que os candidatos presidenciais se deixem engolir por ela quando deviam ser quem mais exige que a educação seja uma razão de Estado e que, muito mais que a economia, seja ela quem define uma ideia de futuro? Estará algum partido em condições de reivindicar autoridade moral nesta discussão?

5.
A Maria tem, hoje, 19 anos. Foi, como tantos outros adolescentes, uma aluna brilhante e, como muitos mais, entrou em Economia, com uma média quase... escandalosa. Ao fim do primeiro ano, com excelentes notas, a Maria assumiu aquilo que lhe ia zurzindo no coração. O seu sonho seria mudar de licenciatura e estudar... direcção de actores. É claro que toda a abertura que sentia nos pais, até aí, a propósito das suas opções profissionais, vacilou, por momentos. Mas a Maria, foi engenhosa e mudou de curso. Ao fim da primeira semana de aulas parecia mais ou menos tristonha. O alarme familiar soou e a Maria reconheceu que lhe tinham colocado uma tarefa... muito difícil. Na escola para onde entrara pediram-lhe para que, durante o fim-de-semana, descobrisse uma qualidade ou uma competência que achasse que só ela, e mais ninguém naquela escola, pudesses ter. Chegar com a língua ao nariz poderá chegar? - perguntou, para si. Seja como for, o importante para a sua escola seria que todos os alunos descobrissem as suas singularidades. Porque um local que não seja uma coligação de singularidades nunca será uma escola.

Ora, é aí que - suponho - todos queremos chegar. Criando uma escola com, diversos formatos, que convivam com regras claras. Tornando-nos todos, sem queixinhas, parte do problema e parte da solução. Com tolerância, com humildade e com paixão. Com respeito pela educação. Por amor à sabedoria e à liberdade.

 

Eduardo Sá

 

O ALUNÃO

Acabou o primeiro período, reúnem-se os professores e atribuem-se as notas. A maioria dos miúdos, felizmente, sairá bem tratada do processo. Com notas mais ou menos elevadas ficarão contentes e o espírito natalício encarregar-se-á de os compensar também da forma possível, pois, como se sabe, o espírito natalício não é igual para todas as famílias, algumas terão até muito pouco espírito natalício este ano.

Outros alunos, apesar de terem alguns resultados menos positivos, encararão, com o apoio dos professores e da família e, naturalmente, com o seu esforço o resto do ano com uma atitude positiva e de confiança assumindo a convicção de como se diz “vão lá”, “são capazes”. Assim deve ser.

No entanto, haverá um grupo de alunos de quem a escola, mesmo estando no primeiro período, desistirá. São os miúdos que “não vão lá”, seja porque “com a família que tem não é possível”, “porque, coitado, não é muito dotado, já o irmão quando cá andou assim era”, “não se interessa por coisa alguma, não anda aqui a fazer nada” ou outra qualquer apreciação entendida como razão. Muitos destes alunos, tal como a escola desiste deles, também eles desistirão da escola, confirmando a antecipação do insucesso, desde já estabelecida.

Num tempo em que a grande orientação é reaproveitar e reciclar o que não serve ou não presta, talvez seja de os municípios, com a orientação do Ministério da Educação, procederem à instalação de um novo recipiente nos ecopontos que quase sempre existem perto das escolas. Assim, junto do vidrão, do pilhão e dos outros contentores, colocar-se-ia um alunão, um recipiente onde se colocariam os alunos que não servem ou não prestam e esperar que algo ou alguém os recicle e devolva à escola novinhos, reciclados, cheios de capacidades e capazes de percorrer sem sobressaltos o caminho do sucesso.

O problema é que somos uma sociedade de desperdícios, até de pessoas, e começamos logo nas pequenas.

 

Zé Morgado

 

NÃO, NÃO E...SIM

Já por aqui temos conversado, de forma mais séria ou através de estórias, sobre a ideia de como o ”não” e o ”sim” são bens de primeira necessidade na vida dos miúdos.

Acontece que, por diferentes razões, na vida das famílias, de muitas famílias, parece estar a ser progressivamente mais difícil administrar o “não” usando-se de forma, por vezes excessiva, o “sim”, seja de forma mais activa ou apenas por omissão do “não”.

Tal cenário acaba por estar associado a situações em que os miúdos evidenciam grandes dificuldades em perceber as regras e os limites do seu comportamento, uma das funções mais importantes do “não”. Como consequência, o comportamento dos miúdos torna-se despótico, desregulado, transformando-os no “pequeno ditador” de que alguns falam e muitos conhecem, gerando-se situações de grande embaraço e climas educativos e relacionais pouco saudáveis entre graúdos e miúdos.

Assistimos com muita frequência a cenas bem exemplificativas deste funcionamento, pais envergonhados e impotentes e meninos a fazer o que lhes passa pela cabeça, quando lhes passa pela cabeça.

Em muitas circunstâncias, os estilos de vida dos pais, o pouco tempo que têm para os miúdos, instalam de mansinho um sentimento de culpa que leva a que os pais, quase sempre sem se dar conta, se inibam, para evitar situações de tensão ou crispação que "estraguem" o pouco tempo que têm para os filhos, de dizer de forma firme e persistente, “não”, "não podes fazer isso". Acontece que o “não” inicial desencadeia no miúdo uma reacção de birra,  mais ou menos exuberante, a que os pais não resistem e, é uma questão de tempo, o “não” passa a “sim” quase sempre acompanhado de um “só desta vez”, “só uns minutos” ou qualquer outra expressão que na circunstância atenue o desconforto.

Os miúdos são inteligentes, percebem muito facilmente quando um não é não ou quando o o passa rapidamente a sim. Aprendem com serenidade as regras e os limites. É, pois, fundamental que os pais se sintam confiantes e usem o “não” de forma adequada, ainda que flexível, sem medos das “birras” ou de perderem o afecto dos miúdos por serem “duros”. Na verdade, as criaas precisam dessas regras e dos limites para estabelecer relações de afecto positivas, a sua ausência é que é um risco.

 

Zé Morgado

 

A Educação Indulgente - Daniel Sampaio

O Dicionário Houaiss define “indulgente” como “aquele que tem disposição para desculpar ou perdoar; clemente”. A etimologia da palavra relaciona indulgente com aquele “que se entrega, inclinado, propenso”.
Não encontro melhor palavra para definir muitos aspectos da educação de hoje. Preocupados com o (des)emprego, com alguma falta de tempo mas muito afecto, os pais de agora preferem deixar correr a tomar uma medida correctora ou a traçar uma fronteira. É certo que, na maioria dos casos, se interessam muito pela instrução dos filhos e questionam os mais novos sobre a sua vida escolar; mas esquecem que, para além da instrução, a educação se deve preocupar com a formação docarácter. E há muito de aprendido (ensinado) nessa parte da personalidade aque convencionámos chamar “carácter” ..
A personalidade de cada um corresponde a um conjunto de respostas comportamentais que caracteriza a pessoa e determina a forma como ela responde às solicitações do seu quotidiano. É um compromisso entre os impulsos e a necessidade de controlo, de modo a manter uma relação estável entre a pessoa e o seu contexto. Todos temos uma personalidade recebida, herdada, uma matriz pessoal determinada nos nossos genes; mas existe uma personalidade aprendida, o carácter, uma espécie de “segunda natureza”, adquirida através da cristalização de hábitos afectivos, cognitivos e morais.
É assim que a educação pode ser definida como faz José Antonio Marina -, como a instrução e a formação do carácter; e é aqui que a educação actual se tornou indulgente, porque lutar pela formação de um carácter forte e atento aos demais exige uma mistura bem doseada de firmeza e afecto, nem sempre conseguida pelos pais de hoje.
Os pais dos nossos dias sabem que o autoritarismo dos seus avós não pode voltar. Espancamentos, sequestros e ausência total de diálogo, tão frequentes na primeira metade do século XX, são agora raros, até porque as crianças conhecem os seus direitos e depressa os denunciam. O problema é que o autoritarismo do passado deu origem, em muitos lares, à permissívidade, a um deixar andar que não contribui para a formação do carácter.
A sociedade de hoje também não ajuda os pais na criação de limites e na educação para os valores. Ao promover, a todos os níveis, a expressão de um individualismo exacerbado, ao cultivar a cultura narcísica e a permanente superação, não fornece o contexto adequado ao sentir do outro. Cada um se quer reconhecer sempre livre e deseja viver para si mesmo, portanto não há disponibilidade psíquica para corrigir, para ajudar a perceber o que está certo e errado, o que se deve ou não deve fazer.
É evidente que temos de educar em liberdade. Não é possível voltar à educação castradora, nem à ideia de que as crianças, colocadas numa escola adequada, iriam evoluir sempre bem. A educação em liberdade, todavia, implica sempre a educação da vontade da criança eo fornecimento de um sistema ético de orientação, que permita uma escolha em cada comportamento decisivo.
Na prática, não é tão difícil como possa parecer. Junto de cada criança, basta perguntar: o que fazes agora? Por que razão estás a fazer isso? Que vai suceder a ti e aos outros se o fizeres? É esta pausa reflexiva muito simples que vai ajudar a criança a fazer escolhas e a tomar decisões adequadas, ao mesmo tempo que lhe atribui a consciência do devereosentido do outro.
A ternura e a exigência, ou o afecto e a disciplina como escreve Brazelton, são as bases fundamentais da educação do carácter. Postas em prática muito cedo através de uma autoridade segura e confiante por parte dos pais combatem aeducação indulgente e impedem o regresso ao autoritarismo. 

in “A Educação Indulgente”, por Daniel Sampaio, Crónica “Porque sim”, Revista Pública

 

 

Os meus, os teus e os outros

Qualquer casamento é, realmente, para toda a vida. Porque ocupa muitas memórias e porque condiciona, por mais que se não queira, todos os gestos amorosos que se terão a seguir.

 

1.

Qualquer casamento (mesmo que não dure) é para toda a vida. Não é mau que seja assim. Mas é difícil. Muito difícil! Porque, se todos sabemos que sempre que namoramos, todos os dias, casamos mais um bocadinho, é difícil ter um coração que saltita, compromissos profissionais, uma agenda familiar, um corpo que se cansa ou se revolta, as actividades extra-curriculares, os trabalhos de casa, os banhos, as histórias, as lamúrias e as birras das crianças, alguém (na família) que fala por murmúrios ou por insinuações (e... atormenta), um chefe que reparte aqueles que «vestem a camisola» dos outros com quem amua, uma conta cujo saldo nos prega sustos que se farta, um cadastro de histórias de família que, não tendo a aragem chocante dum CSI, ao contrário dos episódios com que adormecemos, não castiga os inequívocos culpados, e comentários do género: «estás tão bem!» ou «os anos não passam por ti» que atordoam e latejam devagar.

É difícil (muito difícil) gerir uma vida a quatro mãos. Porque raramente colocamos nos nossos horários de todos os dias... conversar. E, muito menos, namorar. Em resumo: damos um tempo. Muitas vezes. Ou, se preferir, tornamo-nos estranhos com um presente comum. E, quando é assim, por mais que todos os casamentos sejam para toda a vida, poucos amores serão para sempre.

 

2.

Qualquer casamento é, realmente, para toda a vida. Mas, então, quando nele se repartem um ou vários filhos, um casamento é para todo o sempre. Mesmo que os pais se separem ou divorciem. Por isso mesmo incomoda-me muito a fórmula: «os meus, os teus e os nossos». Porque, por mais que todos os pais repitam que gostam de todos os filhos da mesma forma, «os nossos» arriscam-se a sentir-se filhos de 1ª, «os meus» (mais ou menos) de 2ª e os «teus» serão...  os outros.

Ora, eu acho que, no contexto de famílias que se reconstroem, muitos filhos tornam-se (ainda) mais filhos e muitos enteados se sentem (felizmente) filhos, muitos filhos passam a ser (sem que ninguém queira) mais ou menos enteados. Toda esta complexidade (que será estimulante enquanto desafio) atropela, muitas vezes, uma nova relação amorosa. Contra a vontade de todos.

Em primeiro lugar, porque por mais que a fórmula «quem meus filhos beija a minha boca adoça» esteja presente dentro de cada um de nós (quando ficamos atentos em relação aos gestos parentais da pessoa com quem compartilhamos, de novo, a nossa vida amorosa, ou da nossa parte em relação aos filhos dela) as crianças são uma entidade reguladora que testa, permanentemente, os pais o que faz com que (por dificuldades de leitura da nossa parte, por reações magoadas ou impulsivas que vamos tendo ou porque elas possam ser instrumentalizadas diante do sofrimento ou da ira de um dos pais) se azedem quaisquer processos de parentificação dos novos membros da sua família. Porque nem sempre a separação dos pais foi enquadrada por gestos esclarecidos que terão poupado uma criança do fogo-cruzado dos ressentimentos, da clivagem de lealdades ou dos episódios infelizes que envergonham ou atormenta os pais. Porque entre a separação dos pais e a entrada duma nova pessoa na vida de cada um podem não ter existido o tempo, as oportunidades e o bom senso que todos quereriam.

Em segundo lugar, porque as crianças são jogadas - pelos pais ou pelas respetivas famílias de origem - para acusações tácitas ora de vítimas ora de vilões, com as quais elas não deixam de se sentir confusas e, ao mesmo tempo, engolidas por uma cascata de abandonos que lhes chegam dos protagonistas mais improváveis. Se nesse cenário de sofrimento elegerem um «inimigo público» (de preferência, o novo elemento da família alargada) estão a encontrar uma proteção para o sofrimento que as consome (o que, como se compreende, as segurará, por mais que fissure a nova relação de cada um dos seus pais ou a disponibilidade que essa nova pessoa possa ter para adoçar os seus gestos de parentalidade).

Em terceiro lugar, porque deixar de existir «a nossa casa» e passar-se a ter «a casa da mãe» e a «casa do pai» exige um enorme bom-senso de cada um dos pais, no sentido de repartirem o tempo de parentalidade de forma tendencialmente idêntica para que comparticipem, de modo empenhado, em todas as tarefas de parentalidade, e de maneira a não deixarem enviesar os seus gestos parentais por um cuidado tão extremo que quase pareçam medricas.

Em quarto lugar, porque se confiar um filho à mãe ou à sogra já é tão diferente, confiá-lo a um estranho que, pior, se transformou no presumível culpado por um divórcio que se vinha arrastando há anos, é uma tarefa terrível, que se torna mais insuportável quando essa pessoa reúne os requisitos de parentalidade que sentimos que nos faltarão.

Em quinto lugar, porque a condição económica e a disponibilidade de espaços do pai e da mãe se poderão ter ressentido com o divórcio, o que dá lugar a rivalidades parentais escorregadias e a situações delicadíssimas, quando se trata de gerir os quartos ou as camas das crianças, por exemplo (que introduz clivagens muito grandes que colidem com a intenção, de cada um dos pais, de lutarem por uma paridade de cuidados, quando se trata de gerirem «os meus» e «os teus») ou os tempos que dedicam aos seus filhos (que faz com que muitos enteados tenham mais tempo de um dos pais que os seus próprios filhos, com tudo o que isso representa de fraturante para a nova fratria que se constitui).

Finalmente, porque quando se gere a autoridade, os gestos de carinho ou o protagonismo protetor a tentativa de isenção de muitos pais e da sua nova companhia choca com a forma assustada como os filhos os interpretam, o que faz com que uma nova pessoa na relação de um dos pais se empurre a si própria, por excesso de zelo, para um papel omisso, que a transforma em madrasta ou em padrasto, muito mais  que em tio ou noutro «pai».

É claro que ao surgirem, numa família reconstruída «os nossos filhos» tudo fica mais derrapante: porque faz com que muitas crianças - que se foram sentindo filhas do novo companheiro (ou da nova companheira) de cada um dos pais - se poderão sentir... «despromovidas» diante de um novo bebé; porque é fácil que elas sintam, da parte do seu próprio pai (ou da sua mãe), um conjunto de cuidados tão atentos e tão delicados para com o bebé que as leve sentirem-se um bocadinho enteadas para os seus próprios pais; e porque um novo bebé pode aclarar uma distinção de cuidados tal de um dos pais e da sua nova companhia (em relação aos filhos de um e de outro, que já existam) que, em vez de ser um pequeno Messias, um bebé se transforma - pela forma como fratura as atenções, os cuidados e os carinhos de cada um - no protagonista que faz com que a relação reconstruída dos seus pais comece, irreparavelmente, a desmoronar-se.

 

3.

Qualquer casamento é, realmente, para toda a vida. Porque ocupa muitas memórias e porque condiciona, por mais que se não queira, todos os gestos amorosos que se terão a seguir. Se, quando dele resultam uma ou várias crianças, ele se torna, contra o desejo de muitos pais, para todo o sempre, quando convivem mais do que um casamento e mães ou pais diferentes nos gestos de parentalidade de todos os dias, toda essa complexidade é muito mais exigente. Sê-lo-á mais se existirem «os meus, os teus e os nossos». E, por mais que se compreenda que o coração dos pais não seja tão elástico como só eles desejariam, filhos de 1ª, de 2ª e de 3ª são tudo aquilo que nos impede de ser pais. Hoje, e sobretudo, para sempre.

 

Eduardo Sá

 

UM TEXTO ESTRANHO, ESQUISITO MESMO

Existem muitos miúdos que estão ausentes da sala de aula mesmo estando presentes.

Quando assim é, um presente que está ausente, passa a ser um ausente.

Um ausente, estando ausente do presente, estará, provavelmente, ausente do futuro.

Não podemos tranquilamente aceitar que existam miúdos ausentes do futuro.

Curiosamente, a muitos deles oferecemos imensos presentes que, muitas vezes, são inúteis para que os miúdos estejam presentes no futuro.

E eles continuam ausentes.

Por isso, a questão não é dar-lhes presentes.

É considerá-los um presente.

Um presente que garante o futuro.

Um futuro onde eles estarão presentes.

Se no presente não estiverem ausentes.

Texto estranho, esquisito mesmo.

 

Zé Morgado

 

O iPhone. Outros diálogos improváveis

Joana, tenho uma surpresa para ti, vais gostar, andavas sempre a pedir.

O que é Pai, diz depressa.

Comprei-te o iPhone que querias.

A sério? Pai, és mesmo fixe.

Eu sei que não é por coisas destas, mas a verdade é que gosto muito de ti e quero que nos continuemos a dar bem.

Eu sei Pai, também gosto de ti e de vir à tua casa.

...

Joana, tenho uma surpresa para ti, vais gostar, andavas sempre a pedir.

O que é Mãe, diz depressa.

Comprei-te o iPhone que querias.

A sério? Mãe, és mesmo fixe.

Eu sei que não é por coisas destas, mas a verdade é que gosto muito de ti e quero que nos continuemos a dar bem.

Eu sei Mãe, também gosto de ti e de vir à tua casa.

..

Carolina, sabes a cena que me aconteceu?

Não Joana, que cena?

O meu pai deu-me um iPhone e a minha mãe também me deu outro, mesmo igual. Desde que se separaram estão sempre com medo que eu goste mais de um do que do outro.

 

Zé Morgado

 

O sindicato da bondade

Para duas famílias que se juntam, é subtrair um pouco mais ao pouco que se tem. Quando é assim, em cada divisão, somos desfelizes.

1. Não é verdade que uma família seja um presépio. E que todas as pessoas que a componham nos liguem uns aos outros com ternura. E que nos mimem com pequenos gestos e que nos façam sentir, por um bocadinho, especiais todos os dias. E que nos abracem, com força e com calor, e nos tirem o ar desse jeito gostoso, sem que, por um momento, pareçam estar atrapalhadas. E que, com delicadeza, nos aninhem no colo, quando choramos por nada, sem perguntarem porquê. E que nos chamem só para dizer que a estrela que escolhemos em segredo está de plantão para a eventualidade de a querermos cortejar. E que riam ou que chorem no cinema, como se uma história de amor ou uma piada mal-ajeitada fossem parangonas como mais nenhumas. E que vibrem com mais um golo do Benfica como se, sem ele, o mundo – sem quê nem porquê – parecesse insosso. E não é verdade que nos abram o coração e nos falem de si: dos seus assombros, dos erros de que nunca se esquecem e dos seus encantamentos. Das cartas de amor que nunca escreveram até ao fim do que sentiam e de todas as dúvidas com que, de cada vez que disseram «amo-te!» e coisas assim, ligavam um atrapalhador ao coração. E não é verdade que apareçam quando menos as esperamos. E nos dêem presentes, de surpresa. E digam «gosto de ti!» num fôlego, sem estarmos nunca preparados. E que tomem como seus os ódios que nos agarram de surpresa. E que nos puxem para um conflito sempre que os evitamos e, de mansinho, nos acomodamos num impasse. Que sejam justas mas parciais, sobretudo quando gostam de nós. E simples. Sobretudo, que sejam simples. Por mais complexas que sejam as coisas de que nos falam.

Não é verdade que a família seja quem nos dê mais lonjura ao pensamento. Nem quem nos eduque. Nem é verdade que nos dê mais compaixão, mais humor e mais ternura. E mais reconhecimento. Eu acho que as famílias nos tornam, muitas vezes, muito infelizes. E são mais amigas da dor do que deviam. Começando pelos pais. Quando desconhecem os filhos, por exemplo, e desistem de os conhecer, tornando-os estranhos, para si próprios, ao mesmo tempo. E quando nos encaminha para tudo aquilo que a deixa mais sossegada, mesmo que, com isso, o nosso futuro parecesse nunca aceitar pessoas imperfeitas. E quando não nos interpela, pondo em palavras tudo aquilo de que fugimos de pensar. E quando alguém por ela confunde a sua com a nossa vida. Ou nos deixa sozinhos como se, com isso, respeitasse a nossa singularidade, quando o que nos dói é, unicamente, a solidão. E – muito pior – muitas famílias tornam-nos desfelizes, que é assim uma forma de não sermos nem felizes nem infelizes, mas somente «assim-assim». Como se os nossos sonhos fossem, dessa maneira, um pequeno «tanto faz!».

2. Eu acho que se fala muito dos valores da família porque a maioria das pessoas não os conhece ou não a tem. Ou só a tem aos bocadinhos. Aliás, deve ser por isso que, sempre que alguém se casa, logo se diz que constitui família, que é uma forma de reconhecer que se formos melhores pais seremos, finalmente, mais família. Como se o futuro fosse um enclave sem passado nem pessoas. Mas, muitas vezes, quando duas pessoas se juntam são duas famílias que se afastam. Porque as pessoas não compartilham quem amam sem ciúme e sem caprichos. Na verdade, amam tão espaçadamente que, sempre que a elas chega alguém de novo, imaginam um conluio onde podia haver mais verdade e mais carinho. E não são amáveis nem amantes. Desconfio que será porque não saibam dividir. Para duas famílias que se juntam, dividir representa, muitas vezes, subtrair um pouco mais ao pouco que se tem. Quando é assim, em cada divisão, somos desfelizes. Mas se em cada divisão se multiplica entramos para o Sindicato da Bondade.

3. Eu acho, ao contrário do que ouço, que uma família, para ser família, é numerosa. E só se for assim será sagrada. Nas famílias de verdade cabe a educadora que nos contava histórias e a professora que nos ralhava sempre que mordíamos a língua para pensar. E o senhor da padaria, que nos sorria, de manhã, como muitos dos nossos tios nunca o fizeram. E o Augusto, dos jornais, que mal falava mas que, por nada que se esperasse, se comovia enquanto ria. E a D. Isaura, dos bordados, que fazia de conta que não percebia quando estávamos a mentir. E o Pai Natal e Deus, sempre que ficávamos, noite fora, à calhandrice com eles, mais vezes do que conversávamos com os nossos amigos. E eles, claro, para além de todos aqueles que sentimos serem nossos. Uma família é uma barafunda. E só se for assim é paz. E é amiga da verdade, sem a qual se é desfeliz. E puxa os sentimentos, de supetão, do fundo da alma para a superfície da pele. E desabotoa a fantasia. E é dedicada com o colo. E afeiçoa-se ao brincar. E à esperança, é claro. E a tudo o mais que quem fala dos valores da família nunca nos diz. Na verdade, a ideia de família tem sido tão enxovalhada que já não sei se gosto dela. Do que gostava – mesmo! – é que a família fosse, simplesmente, o sindicato da bondade. Mas não sei se conseguirei explicar que, só se for assim, será família. E será feliz.

 

Eduardo Sá

 

MÃE FELIZ

Um dia destes estava à bica num café pequenino, daqueles de bairro, e ouvi, não pude deixar de o fazer, uma conversa entre duas mães que me pareceram mães, isto é, mulheres que adoptaram os filhos, porque há mulheres, poucas felizmente, que são mais prestadoras de serviços à infância, frequentemente em outsourcing, do que propriamente mães. Uma delas, mais faladora, mostrava alguma preocupação e inquietações relativamente à educação de um gaiato, pelo que percebi, de uns oito anos. Achei curioso o discurso e vou tentar recuperá-lo.

Pois é, muitas vezes, nem sei o que fazer, ele faz asneiras, vou para me zangar com ele e lembro-me que estou tão pouco tempo com ele que se me zangar, nem esse tempo me sabe bem. Eu acho que ele vem cansado da escola, está lá desde as 8, vai com o pai porque eu saio às 7 de casa, vou buscá-lo eu já perto das sete e meia, eu também venho cansada. Depois é a lida do jantar e do banho, estás a ver que tempo é que eu tenho para ele. Dizem que a gente devia brincar com os filhos, falar com eles, mas quando? Ao jantar, aproveitamos para ir vendo as notícias que é quando temos alguma hipótese. Por vezes ainda começo a falar com ele ao deitar mas ele adormece logo e eu também vontade não me falta. Este ano não consegui ir às reuniões da escola, foram sempre a horas que eu não podia. Lá no trabalho se falto começam logo a fazer má cara, como as coisas estão, sabes como é. Não sei se aconteceu contigo, mas este ano pediram para comprar muitas coisas para a escola. Não foi nada fácil, está tudo muito caro, a gente tem que fazer alguns sacrifícios mas fica difícil, lá comprámos o computador, ele ficou contente e não quer outra coisa. Às vezes já me explica algumas coisas, eu percebo pouco daquilo mas ele fica contente de me explicar, mas é um bocadinho ao fim-de-semana, sempre com falta de tempo. Mas é a vida assim, a gente é mãe, é para isto não é, a gente é que quisemos que eles nascessem e ainda bem. E quando vejo o ar dele a dormir, bem quieto, até parece que está rir-se para dentro, fico contente e acho que vale a pena a luta dos dias.

Sabes o que ele me disse no outro dia já nem me lembro a que propósito, “mãe, se os miúdos pudessem escolher as mães, eu escolhia-te à mesma”.

Eu também.

 

Zé Morgado

 

Diário de uma criança à beira do nervoso miudinho

   

Os pais não servem como despertador. Adormecem de manhã, como todos nós, mas, ao mesmo tempo que levantam a persiana e nos chamam «Meu querido» e coisas assim, querem que, entre a cara lavada e os cereais despachados, façamos dos 0 aos 100 em poucos... minutos.

Entretanto, como convém às pessoas ponderadas, e paramos de nos vestir para pensarmos na vida, eles sofrem de hiperatividade e, em jeito de ameaça, gritam qualquer coisa do género: «Eu juro que me vou embora, e deixo-te aqui!» (que era tudo o que eu mais queria!).

Os pais servem, também, para nos tirar a boa-disposição, antes do trabalho. Enquanto só não chamam «boas pessoas» a todos os senhores automobilistas que, segundo eles, estavam bem era dormir, ouvem (de meia em meia hora!) as mesmas notícias, atendem o telefone, olham 30 vezes para o relógio, melindram-se com a nossa cara de segunda-feira e, sempre que dizem, com voz de pateta: «Quem é o meu tesouro, quem é?», quem faz as contra-ordenações perigosas somos nós!

Os pais servem para imaginar que todas as crianças, ao chegarem à escola, são campeãs de felicidade.

E que nunca nos apetece mandar a nossa professora para a... biblioteca, de castigo, enquanto ela pensa se não será feio mentir (sempre que grita connosco, quando garante, aos nossos pais, que é só doçuras e meiguices...).

Os pais servem, também, para nos ir buscar à escola. E nisso escapam! Mas, independentemente de nos apetecer limpar o pó ao mundo, perguntam (todos os dias!): «Correu bem a escola? e O que foi o almoço?», com tantos pormenores, e no meio de tanta inquietação, que nos provocam brancas e nos levam ao stresse.

Os pais servem para nos deixar nos tempos livres. E, quando pensávamos que podíamos brincar à vontade, (ou não são os tempos... livres?) descobrimos que eles só podem ter sido levados ao engano porque, afinal, nos obrigam a estar, mais uma vez, quietos e calados. E, pior, quando estamos prontos a pedir o livro de reclamações, ora nos castigam com trabalhos de casa ora nos põem, sentadinhos, a ver os mesmos desenhos animados tantas vezes, que nós achamos que isso deve servir para aprendermos a contar até... 100.

Mas os pais servem, também, para trabalhar para a nossa formação desportiva e para o lazer. Quando chegamos à natação, gritam quando não nos queremos despir ali, à frente de toda a gente. Acham que não podemos brincar nem nos balneários nem na piscina. E gritam, outra vez, quando insistimos que os avós e os acompanhantes das outras crianças não deviam saber em que preparos viemos ao mundo.

Os pais servem, também, para zurzir no nosso lado bem-disposto, quando (de regresso ao carro) nos mandam cumprimentar a prima Maria da Glória que, em vez de nos dizer «Olá», delicadamente e com maneiras, nos esborracha contra ela e nos lambuza e, enquanto nos despenteia, duma ponta à outra, nos ofende, de cada vez que diz: «Ai, meu filho, o teu rapaz está tão crescido!....» (Meu filho?... Mas o pai  bateu com a cabeça? Então,    maltratam-lhe o filho, em vez de lhe darem um beijo transformam-no em algodão doce, e ele, ainda por cima, sorri e agradece?...)

Quando, finalmente, entramos em casa e estamos prontos para descansar, os pais servem para nos dizer, contra todas as nossas expectativas: «Primeiro, fazes os trabalhos de casa. Só depois brincas».

E servem para azedar a nossa boa disposição quando, logo a seguir, tratam, como se fosse contrafação, os pacotes de leite, as embalagens de bolachas e as caixinhas com os presentes da Happy Meal que, carinhosamente, tínhamos a dormir ao pé de nós.

Os pais servem para escandalizar, todos os dias, a nossa paciência, ao jantar. Começam por nunca respeitar o nosso: «Já vou!». Vendem-se à publicidade enganosa de cada vez que acham que a sopa de cenoura «faz os olhos bonitos». Servem-nos ervilhas e, carinhosamente (como quem não está muito seguro do produto que promove), chamam-lhe «bolinhas».

E nunca se cansam de nos dizer que a fruta faz bem!

 E, quando o dia não pára de nos surpreender, os pais servem para dizer, todos os dias: «A partir de hoje... tu vais ver!».

E, sempre que estão chateados com o trabalho, para reclamar. Assim: «Ah queres fazer uma birra? Pois vamos ver quem faz a birra maior!...»

E, quando querem quebrar a monotonia dos nossos dias, os pais, servem para pronunciar com alma cada palavra, quando nos estragam com meiguices: «Qualquer dia... eu emigro! Para muito longe! E quero ver como é que vocês se safam!».

Com dias assim, em que o pai e a mãe fazem de Capitão Gancho, quem não se rende à canseira e adormece antes do fim de cada história? E quem é que não cede ao nervoso miudinho e não acorda, a meio da noite, com os nervos em franja? E quem é que não ficaria desolado, no meio de toda a energia renovável que eles têm, quando  perguntam com quem estávamos a sonhar (e nós, não podendo dizer que era com eles), respondemos que temos medo é... do Papão!

Nós gostamos dos pais. Desconfiamos que eles imaginam que passam pouco tempo connosco mas, se for para isto, não temos coragem para os contrariar. Afinal, nós sabemos que todas as pessoas de coração grande têm a cabeça quente.

E nunca pomos em dúvida que só o amor importa. Só não entendemos porque é que os pais tenham de ser esta canseira!

E achamos que, desta maneira, eles nos fazem nervoso miudinho.

 

Eduardo Sá

 

UM RAPAZ CONTENTE E TRISTE

Professor Velho, a gente pode estar contente e triste ao mesmo tempo?
Por que perguntas, Manel?

Estou um bocado baralhado. Dantes, quando me aconteciam coisas de que eu gostava ficava contente e, quando me aconteciam coisas de que eu não gostava, ficava triste. Mas hoje, aconteceu-me uma coisa boa, fui ver as notas e foram fixes, tive um 5, dois 4 e o resto 3. Fiquei contente, mas olhei para as notas da Joana e fiquei triste porque ela teve notas más. Como eu gosto muito dela fiquei triste, e quando a encontrar nem vou dizer que estou contente com as minhas notas.

Manel, quando a gente cresce começa a ser capaz de ver mais coisas ao mesmo tempo. E outra coisa muito importante, também começamos a pensar no que as outras pessoas pensam, especialmente quando gostamos delas. Sabes que a Joana vai ficar triste, gostas dela e, por isso, ficas triste. É isso?

Acho que sim, Velho.

Então, quando encontrares a tua amiga Joana não precisas de esconder que estás contente, porque ela, como também gosta de ti, vai ficar contente com as tuas notas e triste com as notas dela. Cá para mim, ainda vai ficar mais contente se lhe disseres que vais estudar com ela para ajudar as notas a ficar fixes, como tu dizes.
Boa ideia, Velho.

 

Zé Morgado

 

VEJA LÁ SE FAZ ALGUMA COISA DELE. Outro diálogo improvável

Pois é D. Luísa, continuamos com muitos problemas com o Mauro, já não sabemos o que fazer com ele. A senhora e o seu marido têm de ver se fazem alguma coisa dele.

Quando recebi o postal da escola até disse para o meu marido, “problemas com o Mauro outra vez”, estava a adivinhar. O Mauro até tem bom feitio, as vizinhas gostam dele, ajuda-as, mas aqui na escola … já não sabemos o que fazer. A gente acha que faz como sabe, o meu Miguel nunca deu problemas na escola, fazemos com o Mauro como fazemos com o Miguel, mas já se sabe as crianças são diferentes.

É verdade, mas, de facto, aqui na escola as coisas não têm melhorado, antes pelo contrário, está sempre a desestabilizar as aulas, distrai os colegas, refila connosco quando o chamamos a atenção. Alguns colegas meus acham que se ele não muda, teremos de ver se ele sai da escola. Tem que ver se faz alguma coisa dele.

Não me diga, da outra vez a Senhora Doutora disse que o Mauro ia ter um apoio de uma Doutora da escola, não me lembro o nome …

A Psicóloga?

Era esse nome, mas o Mauro disse-me que a Doutora falou só uma vez com ele e nunca mais o chamou.

Sabe a Psicóloga tem muito trabalho não chega para os casos todos. Infelizmente temos muitos Mauros, além de outros problemas. Na verdade, os pais têm que ver se fazem alguma coisa dele, nós já estamos sem paciência e sem saber o que fazer dele, nada resulta.

Não sei o que vai ser. Tantos professores nesta escola e mais a doutora, pessoas com tantos estudos, estão aflitas com o Mauro, como é que eu e o pai que mal estudámos, fazemos como sabemos, com fizemos assim com o Miguel, as coisas correm bem, não temos ajuda, só nos dizem para a gente resolver, o pai, às vezes bate-lhe, custa-me tanto, é filho, estas coisas custam sempre, não é? Mas já não sabemos o que fazer.

Eu compreendo D. Luísa, mas os senhores é que são os pais, têm que ver se fazem alguma coisa dele.

 

Zé Morgado

 

SER ADULTO. Outro diálogo improvável

Mãe, às vezes enganas-te?

Sim claro, quantas vezes. Toda a gente se engana.

E marcam-te erros?

Mãe, às vezes distrais-te?

Tento estar sempre com atenção, mas algumas vezes também me distraio.

E dizem-te que estás sempre com a cabeça na lua?

Mãe, fazes sempre tudo bem a primeira vez que experimentas fazer?

o é muito fácil fazer tudo bem logo de início.

E chamam-te burra?

Mãe, às vezes tens coisas que demoras mais tempo a aprender a fazer bem?

Claro, há coisas mais difíceis de fazer e de aprender que outras.

E também te dizem que não vais a lado nenhum, que nunca vais aprender?

Mãe, às vezes fazes alguma coisa daquelas que não deves fazer?

Procuro que não aconteça, mas para dizer a verdade às vezes quando as coisas não me correm bem digo uma asneira.

E marcam-te faltas disciplinares e dizem que és indisciplinada?

Diz-me lá uma coisa, de onde vêm essas perguntas todas.

De lado nenhum, estou a pensar que ser adulto parece mais fácil do que ser miúdo.

 

Zé Morgado

 

O QUE É SER BOM ALUNO. Outro diálogo impossível

Professora, o que é ser bom aluno?

Ora Tomás, é fazer as coisas muito bem feitas.

Professora, há pessoas que fazem tudo bem feito? Mesmo tudo?

Claro que não Tomás, ninguém faz tudo bem feito.

Mas são boas na mesma?

Sim, podemos dizer que são bons.

Professora, quantas coisas bem feitas é preciso fazer para ser bom?

Tomás, tu lembras-te de cada coisa. De onde vem essa conversa.

Professora, estão sempre a dizer que não faço nada bem feito. Mas eu faço coisas bem feitas, jogo bem à bola, como o Cristiano Ronaldo, e sou o que corre mais depressa aqui da sala. Já dá para ser bom?

Vê lá mas é se acabas o trabalho de matemática e te deixas de invenções. Na matemática é que tu tens de ser bom.

 
Zé Morgado
 

O RETRATO

Para a realização de um trabalho da sua disciplina, a Professora Leonor pediu aos alunos que pensassem no retrato que acham que as outras pessoas fazem deles e que o descrevessem à turma.

Quando chegou a sua vez, o Rodrigo falou durante algum tempo.

Setôra, sou o Rodrigo. Sou um aluno com mau comportamento, mesmo indisciplinado. Não trabalho muito, sou preguiçoso, mas se quisesse tinha notas melhores porque sou esperto.

Estou sempre distraído ou a fazer o que não devo. Nunca trago o material necessário para as aulas e raramente faço os trabalhos de casa. Os meus cadernos são uma lástima sempre desorganizados.

Chego muitas vezes atrasado e refilo quando me dizem alguma coisa, especialmente os Setôres.

Não vou fazer nada de jeito na vida e é pena porque se quisesse era capaz. Tenho a mania de me armar em palhaço para distrair os colegas.

Vou tendo uma notas que servem para ir passando, mas devia ser mais empenhado e estudar mais. Sou o culpado por qualquer coisa que aconteça na escola. É assim que eu sou, Setôra.

Rodrigo, devo dizer-te que estou muito impressionada com esse retrato.

Eu também fico impressionado, mas é este o retrato que me tiraram.

Zé Morgado

 

TUDO. Outro diálogo improvável

É assim miúdo, tens que aprender. Tudo.

A vida é assim mesmo, tens que saber. Tudo.

o se pode desistir, é preciso muito trabalho. Em tudo.

o te podes distrair, tens que estar sempre atento, sempre concentrado. Em tudo.

O mundo o é para gente fraca, tens que ser forte. Em tudo.

Para ser alguém, é preciso ser bom. Em tudo.

o podes ser parvo, tens que pensar, tens que ser esperto. Em tudo.

Miúdo, percebeste tudo?

Estou com medo.

Medo? Medo de quê?

De tudo.

 

Zé Morgado

 

ESPELHO MEU

Era uma vez um miúdo, o Sem Nome, tinha uns treze anos e a vida não lhe era leve, era mesmo uma vida bastante pesada.

Em casa, sobravam os destratos e faltavam os aconchegos e os afectos. O Sem Nome era, diziam, a causa dos problemas. Ele não percebia muito bem quais e porquê.

Na escola, toda a gente lhe dizia que não sabia, não era capaz, não iria a lado nenhum, que era incompetente, que não tinha jeito para nada e coisas assim.

Um dia, ao passar num sítio viu a sua imagem reflectida.

Quando reparou bem na imagem que tinha à sua frente, não pensou duas vezes, pegou furiosamente em quantas pedras encontrou e atirava, atirava, até já não ouvir o som de estilhaços.

O Sem Nome afastou-se, devagar, triste e aliviado.

A sua escola não ficou com um único vidro inteiro.

 

Zé Morgado

 

PAI

Pai, 
 

Trouxe esta prenda para ti lá da escola para o Dia do Pai. Demorou três dias a fazer.

Desculpa lá, mas é outra vez a mesma coisa dos outros anos. Desta vez eu acho que está mais bem feita. A professora nova diz que nós somos descuidados, pediu à D. Maria, a empregada, para ir com a gente para o recreio e acabou ela as nossas prendas para o Dia do Pai.

o sei porquê mas temos sempre que fazer assim, eu acho que os pais gostavam à mesma se fossem feitas só por nós.

Sabes uma coisa? Um dia a professora perguntou se os nossos pais brincavam com a gente. Eu disse que nós os dois não brincamos muito mas estamos sempre a falar. Ela riu-se e disse que isso também é brincar. Eu já sabia.

O que ela não sabe é que a gente fala muito mesmo que tu estejas nesse lugar muito alto, para onde a mãe diz que foste quando morreste. Mas isso é um segredo.

Agora vou brincar e tu ficas a ver. Olha Pai, depois conto-te uma história muito engraçada que aconteceu à minha amiga Joana.

 

Zé Morgado

 

PROFESSORA E ALUNO. Outro diálogo improvável

Setôra?
Sim, Nuno.
Acha que se eu estudar, vou ser o que quero quando chegar a adulto?
Claro, quando se trabalha, consegue-se o que se quer.
Então porque é que Setôra não conseguiu ser engenheira e teve que dar aulas de matemática, como nos diz de vez em quando?
Bem, vais também aprender que nem sempre a vida permite que as coisas aconteçam como nós gostamos e até merecemos.
...
Setôra?
Sim Nuno, hoje estás para falar comigo, sempre é melhor do que estares a conversar com os teus colegas. Diz.
Setôra, é mesmo importante que a gente goste do que tem que fazer?
Bem, como certamente já descobriste, quando gostamos do que fazemos, as coisas correm melhor, custam menos e estamos mais satisfeitos.
Então porque é que a Setôra está sempre a dizer que está farta de dar aulas e que já não tem paciência para a gente. As coisas assim não correm bem, não é?
Já percebi que não se pode dizer nada, reparas em tudo, mas acho que percebes que nem sempre nos sentimos bem e dizemos coisas desse tipo.
...
Setôra?
Outra vez Nuno?! O que é agora?
Setôra, se a gente tiver confiança em nós, somos capazes de fazer melhor e ir mais longe do que se tivermos dúvidas e acharmos que não somos capazes, não é Setôra?
Claro Nuno, estamos de acordo, agora podes acabar o trabalho se não te importas, a aula está quase a acabar.
Então porque é que a Setôra está sempre a dizer que não chegamos a lado nenhum, que não vamos fazer nada de jeito na vida? Assim a gente não tem confiança.
Bem, já percebi que hoje estás impossível. Bom, na próxima aula acabamos o trabalho. Podem sair.

 

Zé Morgado

 

O PROGRAMA. Outro diálogo improvável

Setôra, porque é que é preciso haver isto da austeridade de que toda a gente fala?

Diogo, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.

Setôra, dizem que o euro vai acabar, é verdade?

Manuela, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.

Setôra, porque é que toda a gente diz que este ano vai ser muito mau?

Francisco, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.

As pessoas dizem que os jovens que estudam muito depois não têm emprego, se calhar não vale pena estudar, pois não Setôra?

Joana, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.

Setôra, quem é que manda no nosso país, é o governo ou aquela cena da troika, que estão sempre a falar a dizer que temos que fazer porque eles mandam.

Tiago, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.

Setôra, é verdade que vamos ficar mais pobres?

Maria, que pergunta a tua, agora não podemos falar sobre isso, temos que cumprir o programa, não temos tempo.

Setôra, ...

 

Zé Morgado

 

O TEMPO MUDA TUDO

O povo costuma dizer que o tempo muda tudo. Embora nem sempre esteja de acordo com o povo, neste aspecto, creio que existirá fundamento.

Em miúdo é teimoso, em graúdo torna-se persistente.

Em miúdo é desconcentrado, em graúdo torna-se alguém capaz de estar atento a tudo.

Em miúdo é hiperactivo, em graúdo torna-se um recurso humano extremamente activo.

Em miúdo é ausente, em graúdo torna-se um indivíduo contemplativo e de grande riqueza interior.

Em miúdo é mal-educado, em graúdo torna-se irreverente.

Em miúdo é esperto, em graúdo torna-se inteligente.

Em miúdo é “uma lesma”, em graúdo torna-se um indivíduo imune ao stress.

Em miúdo é arrogante, em graúdo torna-se assertivo e seguro.

Em miúdo é habilidoso, em graúdo torna-se de grande competência social.

Em miúdo é descuidado na aparência, em graúdo torna-se informal.

Em miúdo é o responsável por tudo, em graúdo torna-se líder.

Em miúdo é esquisito, em graúdo torna-se peculiar.

Em miúdo está sempre a preparar alguma, em graúdo torna-se uma pessoa proactiva, um empreendedor.

Em miúdo tem manias, em graúdo torna-se uma pessoa personalizada.

 

Acho que dá para entender por que razão os miúdos querem crescer cada vez mais depressa.

 

Zé Morgado

 

Ninguém se despede quando diz adeus

Eu sei que me enganaram por amor, mas o céu que me ensinaram não existe. O que nunca me disseram, é que ninguém se despede quando diz adeus.

 

Ensinaram-me que, sempre que se morre, se vai para o Céu. Construí, por isso, a ideia dum lugar longínquo. Talvez porque um sítio tão longe assim precisasse da sensação dum imenso espaço a separá-lo de mim, que só podia ser muito para lá das nuvens, por trás de todos os planetas e das estrelas. Terá sido por isso que eu aceitei que, sempre que se morria, se ia para o Céu.

Nunca imaginei o Céu como um planeta num outro sistema solar. Talvez porque isso o tornasse pequeno. Nem como um buraco negro, por exemplo. Sobretudo porque me custava aceitar que num lugar acolhedor se vivesse às escuras. Para mim, o Céu seria um lugar-comum, embora nunca o conseguisse como se fosse acidentado. Não sei porquê. Estimava-o com algum sol, reconheço. Mas nunca com cores intensas, com o bulício duma cidade, com os aromas fortes dum passeio pelo campo. Ou de voz grossa, como se fosse o mar.

Apesar de tudo o que me foram dizendo, o meu Céu não era um lugar grande. Nem bonito ou ameno. No meu Céu não havia ruas fervilhantes, com caravanas de automóveis e com pessoas, ruidosas e astutas, festejando. Nem um homem estátua a rir às gargalhadas com cada espirro, ou sempre que escorregassem, por entre a sua pose, todos os movimentos que se têm quando se faz de conta que se morreu. Ao meu Céu falta-lhe o cheiro das castanhas e da chuva. E as zaragatas. E não via que nele as pessoas chorassem no cinema ou rissem sem parar. Às pessoas do meu Céu faltavam respostas na ponta da língua. E não as imaginava, logo que entrassem num livro, galgando todas as páginas, até ao último capítulo. No meu Céu nunca imaginei ninguém que lesse, reparo agora. E deixa-me sem jeito que no Céu não se distingam os livros que nós lemos daqueles que nos leem. Da mesma forma que escutar um texto e lê-lo não são a mesma coisa, também o som das lágrimas e aquilo que nos dizem se separa. Mas como não imagino que se chore no Céu, sinto até que lhe falta algum sofrimento para ser… Céu.

Eu gostava que no meu Céu, quando se chora por muitas razões ao mesmo tempo, para simplificar se explicasse que se chora «por nada!» que é assim uma forma de, numa espécie de sussurro, se disser: «sente-me em ti e deixa-me estar»).

E gostava que, se se chora à partida, ao meu Céu nunca faltasse o burburinho de todas as chegadas. A corrida por um abraço. Um beijo com lágrimas. E os olhos nos olhos, à distância da respiração que se mistura, quente e ofegante. E, claro, um ramo de rosas. Pelo menos. Se se morre para coisas destas, pequenas e indelicadas, como pode o Céu ser um lugar melhor?

Não me parece que o Céu seja um longo fim de semana, com pessoas sentadas à beira do rio, a namorar, e com crianças esparramadas pela relva, a decifrar o nariz que sempre se destaca de entre todas as formas que há nas nuvens. Às vezes, ouso imaginar a cor do Céu. Não sei porquê, mas acho que ele não é azul. Imagino o Céu em palidez. Bucólico. Opaco, até. E silencioso. E custa-me supor que, no Céu, o silêncio não seja, unicamente, como aqui, aquilo que fi ca quando não somos capazes de sentir o som de alguém, com quem estejamos, a ressoar em nós. Arrelia-me que, por lá, as pessoas não tropecem umas nas outras, nunca se enfureçam, não gesticulem, nem praguejem. Por quase nada. E que não se engasguem quando querem ser ternas. E que nunca digam: «és a mulher da minha vida!» (como se nunca fosse preciso que um grande amor as guiasse para o Céu). Eu já achava que as pessoas só deviam morrer quando não precisássemos delas. Mas se o Céu for assim – como imagino - prefiro, ainda mais, que se cheguem para mim. E que fiquem cá.

Eu sei que me enganaram por amor, mas o Céu que me ensinaram não existe. O que nunca me disseram, é que ninguém se despede quando diz adeus. Nem que ninguém se afasta quando se despede. Sempre que mente acerca do que sente, o coração retira-se, sem sequer se despedir. Não se separa de quem nos afasta. Despede-se de quem não o sente. E talvez só assim seja morrer.

 

Eduardo Sá

 

SER ALGUÉM

Os professores da minha escola ensinavam-nos a ser alguém.

Diziam-me para pintar o quadrado de vermelho, eu gostava de pintar o triângulo de azul. Parece que só se pode pintar o que nos dizem, da cor que nos dizem.

Diziam-me que a minha árvore estava mal desenhada porque as árvores não são assim como a minha. Era assim que eu gostava de desenhar árvores.

Diziam-me para escrever frases com umas palavras. Eu gostava de escrever frases com outras palavras.

Diziam-me para escrever um trabalho sobre um assunto. Eu gostava de escrever as histórias que inventava para contar aos meus amigos.

Diziam-me para ler aquele livro. Eu gostava de ler uns livros que descobria com o Professor Velho na biblioteca.

Na verdade, em todo o tempo da minha escola me disseram exactamente o que tinha de fazer, como tinha de fazer, o que tinha de saber, quando tinha de saber, o que tinha de pensar, como tinha de pensar, do que deveria gostar, ou seja, ser alguém, diziam-me.

E assim fiz, demorei algum tempo mas assim fiz, sou alguém.

Ontem, vinha na rua e outro alguém se me dirigiu, “Desculpe, importa-se de nos dar a sua opinião sobre …”.

Em pânico, interrompi a pessoa. Há tanto tempo que não penso.

 

Zé Morgado

 

VOU TER QUE TE PÔR NA RUA - Outro diálogo improvável

Eu tinha-te avisado Ricardo, outra intervenção dessas e terias que sair da sala de aula.

E então Setora?

Vou ter mesmo que te pôr na rua. Sai se faz favor.

Setôra diga-me só uma coisa também se faz favor.

Sim, mas rápido tenho a aula para dar.

A Setôra põe-me na rua para me castigar. É verdade?

Claro Ricardo, não páras de ser insolente, tenho mesmo que te castigar mandando-te para a rua.

Mas a Setôra sabe que eu não gosto de estar na escola, não sabe?

Sim, há algum tempo que percebi que não gostas da escola e acho que fazes mal. A escola é importante para o teu futuro.

Pois é Setôra, mas ainda estamos no presente. A Setôra também sabe que eu não percebo quase nada desta disciplina, a Matemática, não sabe?

Vês como és insolente. E na verdade tenho que dizer, embora lamente, que o teu aproveitamento é muito fraco.

Então a Setôra sabe que eu não percebo nada do que aqui se fala, não gosto da escola, manda-me para a rua e acha que é um castigo para mim?

Mas …

Não Setôra, acho mesmo que é um prémio, é mesmo isso que eu quero, sair daqui. Se a Setôra me quer castigar não me ponha na rua, tenho que estar aqui até ao fim.

Mas não pode ser, estás sempre a perturbar o funcionamento da aula, como achas que podemos então resolver isto?

Só se a Setôra me der Novas Oportunidades, é o que dão a toda a gente.

 

Zé Morgado

 

 

A nossa pátria são todas as crianças

Todas as crianças têm o direito a ser crianças. E têm o direito a crescer livres, mas com regras, num país amigo das crianças.

Todas as crianças têm o direito a um país cuja Lei do Trabalho preveja que as consultas de obstetrícia sejam, também, uma obrigação de todos os homens à espera dum bebé. Onde as crianças não tenham de sair cedo demais de casa. E onde os berçários e os jardins-de-infância sejam, tendencialmente, gratuitos e para todos, sendo reconhecidos como uma condição essencial para que a educação seja melhor, mais plural e mais bonita.

Todas as crianças têm direito a uma escola que as eduque, antes de instruir. Onde não passem tempo demais, todos os dias. Em que as aulas não sejam tão grandes como têm sido e se poupe nos trabalhos de casa. E em que os recreios sejam maiores em tempo e melhores nas condições de segurança e nos recursos que põem ao dispor de todas as crianças.

Todas as crianças têm, também, direito a livros escolares gratuitos, para todo o ensino obrigatório, que sejam, idealmente, propriedade de cada escola, sendo as crianças obrigadas a acarinhá-los, todos os dias, porque só quando o conhecimento passa de uns para outros, e se trata com cuidado, nos torna sábios.

Numa escola amiga das crianças os professores contam histórias e acarinham, quando ensinam. E haverá, por isso, um quadro de honra para todos os alunos faladores. Porque uma escola que não fala e não escuta vive assustada e fechada sobre si. E, se for assim, educa mal. E não é escola.

Numa escola amiga das crianças todas elas estão obrigadas a ser agressivas. Com maneiras. E a ser leais, umas com as outras. Numa escola amiga das crianças as que fazem queixinhas, a torto e a direito, os alunos exemplares, os alunos solitários e mal-educados, os alunos violentos, e aqueles que repetem mas não pensam são crianças cujos pais têm necessidades educativas especiais. Devem, portanto, ser ajudados. Mas se, teimosamente, não quiserem perceber os perigos com que magoam os filhos, talvez não merecem ser pais.

Num país amigo das crianças, todas elas têm direito a tempo livre. Sem a tutela permanente dos seus pais. E sem ateliês onde façam os trabalhos de casa, onde vejam televisão e onde  tenham de estar quietas e caladas. Aliás, num país assim, todas as crianças terão direito a conversar. Porque só quando se pensa com os outros, conversando com os botões e em voz alta, ao mesmo tempo, se aprende a crescer.

Num país amigo delas, todas as crianças têm direito a brincar. Todos os dias, sem direito a férias, pontes ou feriados. E a brincar com um dos pais, 30 minutos, de segunda a domingo. Têm, também, o direito a ser filhas únicas dos seus pais, uma vez por semana, por um bocadinho. E a ter os pais, ao jantar e depois dele, sem telemóveis e sem televisão, só para a família.

Num país amigo das crianças, todos os pais que achem os filhos sobredotados, devem ficar, de vez em quando, de castigo. Porque (sem quererem, certamente) não percebem que todas as crianças (mas todas, mesmo) têm uma ou outra necessidade educativa especial. E que, pior que não a corrigir, é disfarçá-la com tudo aquilo que, supostamente, se faz bem. E não percebem, também, que as crianças que eles acham normais, só parecem mais adormecidas porque as pequenas maldades e os desamparos, a zanga sem fim e a tristeza dos pais, quase todos os dias, lhes traz (ao coração e à cabeça) um ruído de fundo que atrapalha o pensamento. Para além disso, todos os pais que - mesmo dizendo «posso estar enganado...» - acham que os seus filhos têm uma personalidade muito forte, devem ficar de castigo duas vezes, porque baralham a convicção, que vem de dentro, com a teimosia que faz «braços de ferro», por tudo e por nada com quem está fora. Mas, se por infelicidade, os pais insistirem em ser simplesmente, bonzinhos e prestadores de serviços (em vez de pais) estão poupados a todos os castigos, porque não há nada que doa mais que um principezinho que se transforma num pequeno ditador e, de imposição em imposição, chega à adolescência como grande tirano.

 

Num país com futuro, todas as crianças têm direito a uma família. E, por isso, não podem estar confiadas a centros de acolhimento tanto tempo como tantas estão. E têm o direito a uma Justiça amiga das crianças, que obrigue a segurança social a ser mais despachada e eficaz, sempre que se trate de as proteger. E se, porventura, houver quem queira transformar um Tribunal num tutor de pais zangados e desavindos, que nunca põe os interesses dos filhos em primeiro lugar, num país amigo das crianças eles serão advertidos e castigados, porque não merecem ser pais. Simplesmente, porque todas as crianças têm direito ao direito e ao afecto (que, de braço dado e como quem tagarela muitas vezes) tornam o mundo mais clarividente e mais sensato.

Todas as crianças merecem um país amigo das crianças. E, sobre tudo o resto, é-lhes devido o direito a ser crianças. Dos 0 aos 18, fazendo as contas pelos mínimos. E têm o direito a ter pais. Daqueles que, sempre que desligam o «piloto automático» com que educam e dão colo, ligam uma espécie de atrapalhador com que dizem (gritando, já se vê): «A partir de hoje!....» muitas vezes. E têm, ainda, o direito a pais de coração grande e de cabeça quente. Daqueles que fazem, pelo menos, uma asneira, todos os dias sem a qual ninguém se torna amigo das crianças. E, muito menos, mãe ou pai.

E merecem, ainda, o direito a admirar os pais e os avós. Porque só quem admira se torna humilde. E só quem conhece a sua história, e se orgulha dela, conquista o direito a ter futuro.

Todas as crianças têm, finalmente, o direito a ingonhar engonhar, a destrambulhar destrambelhar, a azucrinar e a chinfrinar. Têm direito a ter uma ou outra macacoa. E a ser, até, estrambólicas e escaganifobéticas. Que são formas complicadas de falar da salvaguarda do direito de quem se engasga e de quem se engana, de quem exagera e se atrapalha, e de quem erra. Que só é possível quando se tem pais e avós, e muitos tios ligados nelas. Que, todos juntos, façam com que, venha de onde vier, cada criança nunca se perca no caminho para casa.

Todas as crianças têm o direito a um país amigo das crianças. Onde todas as pessoas, nem que seja aos bocadinhos, sejam atentas, serenas e sábias, bondosas e firmes para com elas. Um país onde todas as crianças se sintam filhas dos pais e sobrinhas de todos. Um país que não as idolatre nem endeuse, mas que as ame, simplesmente (que é tudo aquilo que quem repete que «o melhor do mundo são as crianças», raramente, lhes dá). Porque, afinal, a nossa pátria são todas as crianças.

 

Eduardo Sá

 

A FORÇA DO AFECTO

Cenário – Corredor de uma instituição de ensino superior

Personagens – Jovem furiosa ao telemóvel sentada num banco e o escrevinhador que passa

 

Cena – No momento em que o escrevinhador passa, a jovem furiosa ao telemóvel quase que grita, “Não me interessa, sou a tua namorada. Combinaste uma hora tens que vir. Nem que tenhas que dar a volta ao mundo”. O escrevinhador, em movimento, já não ouviu mais.


O escrevinhador afasta-se impressionado com a força do afecto que tudo sustenta e a tudo obriga. Impressionado com a urgência de um encontro combinado e o vazio devastador de um atraso. Impressionado com a exigência ciclópica que um encontro pode conter traduzido na imensidão de “nem que tenhas que dar a volta ao mundo".

O escrevinhador ainda pensou que, às vezes, o afecto não resiste a tanta força. A esta força, uns chamam-lhe paixão, outros chamam-lhe posse.

 

Zé Morgado

 

OS MIÚDOS DE HOJE. Outro diálogo improvável

 

Mãe, posso ir buscar …

Não Manel, não te podes levantar ainda.

Mãe, posso brincar com …

Não Manel, isso não é para brincar.

Mãe, posso fazer …

Não Manel, sabes que não se faz.

Mãe, eu queria …

Não Manel, é claro que não podes.

Mãe, posso pôr …

Não Manel, que ideia.

Mãe, vou agora ver …

Não Manel, agora não.

Mãe, posso ir ter com …

Não Manel, é perigoso.

Mãe, posso dizer à …

Não Manel, ela não pode.


Pois é D. Rita, continuando a nossa conversa agora que o Manel se calou, os miúdos, hoje em dia, não têm iniciativa para nada, temos que ser nós a dizer tudo.

 

Zé Morgado

Agradecemos o seu Comentário

textos

Carla | 08-12-2012

Adoro os textos e tenho reflectido com alguns deles mas confesso que tenho estado a acompanhar mais a página do facebook que aproveito para dizer que vê-se perfeitamente que é "construida" com enorme empenho, dedicação e criatividade. Sigo os textos por lá e adoro.

Obrigado.

opinião

Paula | 09-06-2012

Sou fâ do Eduardo Sá, mas realmente os textos de José Morgado são surpreendentes e dão que pensar.

Vou lendo o que vão aqui deixando.

Cmptos

Opinião sobre os textos

Filipe | 08-06-2012

Não frequento este centro mas andava a pesquisar e encontrei este belissimo site com estes textos que dão que pensar...principalmente: O TRABALHO DE CASA. Um texto esquisito de Jóse Morgado. Simplesmente forte e que tanto reflecte a vida das nossas crianças.

Vou ficar atento para quando colocarem outros mais.
Têm ajudado a ver as coisas de outra forma e há aqui situações que nunca tinha pensado nelas noutra forma.

Cumprimentos

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